OPINIÃO

 

Ivan Marques de Toledo Camargo é professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UnB. Graduado em Engenharia Elétrica pela UnB, mestre e doutor em Génie Electrique - Institut National Politechnique de Grenoble (França). Ex-reitor da UnB.

Ivan Camargo

 

Era dezembro de 1998, a Universidade de Brasília estava de férias. Eu substituía o meu amigo, professor Nepomuceno, na direção da Faculdade de Tecnologia. Recebi uma mensagem da reitoria solicitando que eu fizesse uma outorga de grau antecipada porque um formando tinha conseguido uma bolsa do governo do Japão para cursar mestrado e doutorado em Tóquio.

 

O formando era o Anderson. Tinha sido meu aluno. Um menino brilhante, um ponto fora da curva. Para mim seria um prazer formalizar a sua formatura na sala do diretor da FT. Combinamos a data e ele compareceu na companhia do seu pai. A cerimônia foi curta, não durou cinco minutos, e protocolar. Pedi que ele lesse o juramento e declarei que ele estava formado entregando o seu diploma.

 

Para a minha surpresa, seu pai, ao meu lado, estava aos prantos! Era o primeiro membro da família a conseguir um diploma de estudo superior. Este rapaz brilhou no Japão. Fez mestrado, doutorado, ganhou prêmios em diversos simpósios que participava. Sua área de atuação era a criptografia.

 

Voltou para Brasília para lecionar na UnB. Passei a conviver com o Anderson como um colega. Ele, sempre muito educado e humilde, era constantemente homenageado pelos seus alunos.

 

É difícil manter uma mente brilhante em Brasília. Foi convidado a dar aulas na Universidade de Washington, nos Estados Unidos. Brilhou por lá também, não apenas na academia, mas também na iniciativa privada. Nas suas férias, vinha à Brasília e ao nosso departamento visitar os amigos e dizer o que andava fazendo por lá.

 

Casou-se com uma colega, ex-aluna do ENE, Mayana, e tiveram dois filhos. Sempre falava com muito orgulho da família e do desempenho dos filhos nas escolas americanas.

 

Há dois anos, no auge da sua carreira profissional, recebe a notícia de uma grave enfermidade. Compartilha com os seus colegas as dificuldades dos tratamentos e as pequenas perspectivas de sucesso.

 

Hoje, consternado, recebo a notícia da partida deste jovem, querido e brilhante colega.

 

A Universidade, de luto, perde um dos seus maiores quadros. Fique em paz, querido amigo.

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