Kelly Quirino
O racismo, o machismo e a desigualdade social continuam organizando oportunidades e distribuindo privilégios no Brasil. Para as mulheres negras, essas estruturas não atuam de forma isolada. Elas se cruzam cotidianamente, produzindo barreiras que dificultam o acesso à educação, ao trabalho digno, à renda, à saúde, à representação política e ao reconhecimento de suas capacidades. A interseccionalidade entre raça e gênero explica por que elas ocupam, historicamente, a base da pirâmide social, mesmo sendo protagonistas da construção econômica, cultural e afetiva do país.
A história brasileira foi edificada sobre a exploração do trabalho de mulheres negras. Durante a escravidão, elas sustentaram a produção agrícola, os serviços domésticos, o cuidado das famílias e a transmissão de conhecimentos sobre alimentação, cura, religiosidade e cuidado comunitário. A abolição, porém, não significou igualdade. Ao contrário, inaugurou um longo período de exclusão social, marcado pela ausência de políticas públicas capazes de reparar séculos de violências.
Mesmo diante dessas desigualdades, mulheres negras nunca ocuparam apenas o lugar da resistência. Elas sempre foram construtoras de alternativas. Organizaram comunidades, preservaram saberes ancestrais, criaram redes de solidariedade, lideraram movimentos sociais e abriram caminhos para que novas gerações pudessem sonhar com futuros antes considerados impossíveis.
Foi dessa trajetória que emergiram intelectuais, lideranças políticas e ativistas como Tereza de Benguela, Luiza Mahin, Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Carla Akotirene e Djamila Ribeiro, entre tantas outras. Mulheres que produziram pensamento, denunciaram injustiças e transformaram a luta antirracista em um projeto de democracia para toda a sociedade.
Ainda assim, os desafios permanecem. A violência política de gênero e raça, a diferença salarial, a sobrecarga do trabalho de cuidado, o feminicídio, o racismo institucional e a sub-representação nos espaços de decisão revelam que a igualdade ainda não foi plenamente alcançada. Defender os direitos das mulheres negras significa enfrentar estruturas históricas que continuam naturalizando desigualdades.
Como nos ensina Angela Davis, quando uma mulher negra se movimenta, toda a estrutura da sociedade se movimenta com ela. Essa afirmação ganha sentido todos os dias. Está na empreendedora que gera trabalho na periferia. Na agricultora que cultiva alimentos. Na profissional da saúde que cuida da vida. Na professora que transforma futuros pela educação. Na cientista que produz conhecimento. Na artista que canta, dança, escreve e reinventa a cultura brasileira. Na benzedeira que preserva saberes ancestrais. Na trabalhadora que sustenta sua família e fortalece sua comunidade.
O dia 25 de julho, Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra, é mais do que uma data de memória. É um convite para reconhecer a potência dessas mulheres e reafirmar o compromisso com uma sociedade mais justa.
Celebrar as mulheres negras também é celebrar sua alegria. É ajudar com palavra! É reconhecer suas gargalhadas que desafiam o racismo, seus cabelos crespos erguidos como coroas, sua criatividade, sua inteligência, sua espiritualidade e sua capacidade de transformar dor em afeto, luta em conquista e esperança em projeto de futuro.
As mulheres negras não carregam apenas a memória da resistência. Elas carregam, sobretudo, a beleza de quem continua semeando novos caminhos para que as próximas gerações possam viver, enfim, o bem viver. E é também no ventre das mulheres negras que repousa a esperança de um país diferente. Ventre que gera vidas, mas que também gesta valores, memórias, afetos e futuros. São mulheres que educam crianças para romper os ciclos do racismo e do sexismo, ensinando, desde cedo, o respeito, a dignidade e o reconhecimento da diversidade como fundamento da democracia. Cada criança criada sob o afeto, a ancestralidade e a justiça social representa a possibilidade de um Brasil mais humano, mais igualitário e verdadeiramente livre de todas as formas de opressão.
Como nos ensina Conceição Evaristo, "Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer." E não apenas de sobreviver: combinamos de florescer, de sonhar e de construir, geração após geração, um futuro em que meninas e mulheres negras possam viver plenamente o bem viver. Porque onde uma mulher negra floresce, floresce também a possibilidade de um Brasil mais democrático, mais humano, mais plural, livre do racismo e sexismo.
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