OPINIÃO

 

Cristina Lemos Barbosa Furia é professora do curso de Fonoaudiologia na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde da UnB (FCTS). Pesquisadora na área de Envelhecimento Humano com foco no estudo do processo e das desordens da deglutição, voz e qualidade de vida, em diferentes abordagens genética, tecnológica e de inovação diagnóstica.



 

Izabel Cristina Rodrigues da Silva é professora do curso de Farmácia na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde da UnB (FCTS). Possui experiência em Genética Humana e Médica, Bioestatística e Vigilância Sanitária, desenvolvendo projetos em polimorfismos genéticos, aspectos regulatórios e estudos não clínicos.

 

 

Juliana Onofre Lira é professora do curso de Fonoaudiologia na Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde da UnB (FCTS). Atua na área do Envelhecimento Humano na interface da Gerontologia com Linguagem e Cognição e Saúde Coletiva.

Cristina Furia, Izabel Cristina e Juliana Onofre

 

O envelhecimento da população traz novos desafios para os serviços de saúde, especialmente em relação às alterações da cognição, comunicação e deglutição. Essas funções compartilham redes neurais complexas que podem ser comprometidas pelo envelhecimento e por doenças neurológicas, como o acidente vascular encefálico (AVC), aumentando o risco de fragilidade, perda da independência e complicações relacionadas à alimentação.

 

A disfagia — dificuldade para engolir — impõe um impacto severo à saúde pública devido à sua elevada prevalência e associação direta com desnutrição, desidratação, pneumonias aspirativas e hospitalizações frequentes. A condição apresenta-se de forma heterogênea, acometendo de 10% a 30% dos idosos saudáveis na comunidade (Thiyagalingam et al., 2021), 40% a 60% dos residentes em Instituições de Longa Permanência - ILPI (Siqueira et al., 2020), e de 50% a 78% dos pacientes pós-AVC, conforme a gravidade e a fase aguda (Song et al., 2024). Apesar desses números expressivos, a disfagia muitas vezes permanece subdiagnosticada e sem as orientações adequadas para pacientes, familiares e cuidadores.

 

Com o objetivo de ampliar o acesso a informações confiáveis e baseadas em evidências científicas, pesquisadores da Universidade de Brasília, liderados pelas professoras da FCTS Cristina Lemos Barbosa Furia, Izabel Cristina Rodrigues da Silva e Juliana Onofre Lira desenvolvem um projeto que dará origem a um aplicativo educativo voltado à promoção da alimentação segura de adultos e idosos. A proposta utiliza recursos interativos inspirados em jogos educativos para tornar o aprendizado mais acessível, estimulando o engajamento dos usuários e favorecendo a adoção de práticas seguras durante a alimentação.

 

O desenvolvimento da tecnologia será fundamentado nos resultados de uma ampla pesquisa clínica. Na primeira etapa, pacientes nas primeiras 72 horas após o AVC são submetidos a avaliações padronizadas da cognição, independência funcional, força muscular, força de língua, tosse e segurança e eficiência da deglutição por videoendoscopia, além da análise de marcadores moleculares relacionados à plasticidade cerebral. Em seguida, o projeto avalia idosos em situação de vulnerabilidade e fragilidade acompanhados por um serviço especializado em gerontologia.

 

Essas informações permitirão compreender como fatores clínicos, funcionais, cognitivos e biológicos influenciam a recuperação e a capacidade de alimentação segura. Os resultados também orientarão o desenvolvimento do aplicativo, que será planejado considerando as capacidades cognitivas, físicas e funcionais dos usuários, com linguagem simples, acessibilidade e facilidade de navegação.

 

Além de oferecer orientações sobre alimentação segura, o aplicativo deverá auxiliar na identificação precoce de sinais de alerta relacionados à deglutição, alimentação e cognição. O reconhecimento antecipado desses fatores possibilita intervenções mais oportunas, reduzindo complicações, preservando a funcionalidade e contribuindo para maior autonomia e qualidade de vida.

 

O projeto representa uma iniciativa interdisciplinar que integra assistência, pesquisa e inovação, fortalecida pelo apoio da Fundação de Apoio à Pesquisa do Distrito Federal (FAPDF). O investimento permite produzir evidências científicas robustas que subsidiarão o desenvolvimento da tecnologia, além de formar recursos humanos em diferentes níveis de qualificação, envolvendo estudantes de iniciação científica, mestrado, doutorado e pós-doutorado.

 

Ao reunir conhecimentos sobre avaliação clínica, funcional e molecular, a iniciativa busca desenvolver uma solução tecnológica inovadora para apoiar idosos, familiares, cuidadores e profissionais de saúde. A expectativa é que o aplicativo contribua para a prevenção de complicações relacionadas à alimentação, promova maior segurança durante as refeições e favoreça um envelhecimento mais saudável, autônomo e com melhor qualidade de vida.

 

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