Guilherme Martins
“A recusa do olhar: tramas do isolamento kagwahiva no rio da Dúvida” é o título deste trabalho em antropologia social defendido no PPGAS/UnB, que foi premiado como melhor dissertação em ciências sociais pela ANPOCS em 2025. O trabalho aborda a temática dos povos indígenas isolados partindo do estudo de caso dos Piripkura, povo de língua Tupi-Kagwahiva que habita a bacia do rio Roosevelt, anteriormente conhecido como rio da Dúvida. Ao seguir as tramas que levaram os Piripkura e outros grupos Kagwahiva a se isolarem no interflúvio Tapajós-Madeira, a pesquisa descortina uma série de elementos sobre o fenômeno do isolamento de povos indígenas. Além disso, toda a pesquisa visou alcançar novos dados que permitissem avançar na luta pela garantia dos direitos territoriais dos Piripkura, que até hoje não tem sua terra demarcada.
O primeiro capítulo faz um panorama sobre quem são os chamados "povos indígenas isolados" e o que esse conceito implica em termos teóricos e metodológicos. O termo "povo indígena isolado" nasceu como uma categoria administrativa — um jeito que o Estado encontrou para organizar a política dirigida a esses povos —, mas está longe de dar conta da complexidade do fenômeno, aspecto que diferentes pesquisadores já reconheceram. Estudar povos que evitam ativamente o contato impõe um desafio grande para a antropologia, cujo método clássico, a etnografia, depende justamente de se conviver de perto com quem se estuda. Como a convivência direta é praticamente impossível, foi preciso recorrer a outros caminhos: analisar vestígios materiais deixados na floresta, mapear as relações que esses povos mantêm (ou mantiveram) com indígenas vizinhos, e cruzar dados de história, linguística e arqueologia — sem perder de vista como os próprios povos indígenas entendem sua história, através de mito, xamanismo e parentesco.
O segundo capítulo reconstrói a história do isolamento Kagwahiva. Assim foi possível conectar a história de longa duração de todo o povo Tupi-Kawahiva ao caso específico dos Piripkura. Essa reconstrução mostra que o território hoje ocupado pelos Piripkura sempre foi uma espécie de corredor migratório, usado por diversos grupos Kagwahiva ao longo de séculos. Isso ajuda a preencher lacunas na história territorial desse povo e reforça que a presença dos Kagwahiva naquela terra é muito mais antiga do que se supõe.
O terceiro capítulo mergulha no mundo Piripkura propriamente dito. Antes disso, o autor apresenta elementos centrais da cultura Kagwahiva: língua, técnicas, mitologia, organização social e história local conjugada. Esse repertório é compartilhado por todos os grupos que se reconhecem como Kagwahiva, incluindo os Piripkura e outros grupos isolados aparentados. Para entender o mundo Piripkura, o autor conviveu com dois dos três sobreviventes conhecidos do povo. A partir dos relatos destes sobreviventes, o autor reconstrói uma espécie de "etnografia da memória", revelando detalhes sobre como era o modo de vida dos Piripkura enquanto viviam isolados —incluindo como décadas de isolamento afetaram o sistema de parentesco, os nomes, o tabu do incesto e as práticas ligadas ao xamanismo. O capítulo também mostra que, ao contrário do que costuma se dizer, os três irmãos Piripkura não se consideram "os últimos do seu povo" — eles reconhecem parentes desaparecidos que talvez ainda estejam vivos na floresta.
O quarto e último capítulo usa tudo o que foi aprendido sobre os Kagwahiva para pensar o fenômeno do isolamento de forma mais ampla. O capítulo também explora como esses povos constroem sua relação com os brancos — não como uma simples fuga ou recusa ao Estado, mas como uma escolha ativa, ligada a concepções indígenas sobre visibilidade e relacionalidade. A dissertação argumenta que a própria ideia de uma linha divisória rígida entre "isolamento" e "contato" reflete mais a lógica ocidental do que a forma mais contínua de como os povos indígenas entendem suas relações.
Ao final, o trabalho levanta uma hipótese instigante: o isolamento pode não ser um fenômeno restrito aos indígenas das florestas tropicais, mas sim uma modalidade de socialidade humana que aparece de distintas formas em diferentes lugares e épocas do mundo. Isso convida a repensar os limites da própria imaginação ocidental sobre o que significa viver em sociedade — uma reflexão especialmente urgente em tempos de crise climática.
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