OPINIÃO

 

Anna Beatriz de Carvalho Leite é doutoranda em Direitos Humanos pela Universidade de Brasília. Advogada da área criminal como foco no combate à violência de gênero.

 

Anna Beatriz de Carvalho Leite

 

No Distrito Federal, conforme o Panorama da Violência contra a Mulher, aponta-se que 77,6% das mulheres relataram experiências compatíveis com violência praticada por parceiro íntimo ao longo da vida, embora apenas 44,8% tenham reconhecido diretamente que sofreram violência.

 

Escolher falar do Distrito Federal neste Agosto Lilás é também uma forma de produzir proximidade acerca do tema e de como a Lei Maria da Penha incide na nossa região. A distância entre viver e nomear a violência já diz muito sobre esse tema. Quantas histórias não ouvimos de amigas, mães, parentes ou desconhecidas? Quantas mulheres jamais denunciaram? Quantas vozes foram caladas e quantas ainda tentam encontrar palavras para dizer o que viveram?

 

Diante de certos dados, a violência contra as mulheres pode parecer um conjunto de números distantes. Às vezes, algum noticiário nos mostra, de forma quase mórbida, o rosto de uma vítima. O dia mais perigoso da vida de uma mulher é o dia em que ela termina um relacionamento. Sentimos um aperto no peito e seguimos, também com medo, por nós e pelas nossas, pelas que conhecemos e pelas que não conhecemos. É preciso estar atenta e forte. É preciso estar próximo umas das outras.

 

O Agosto Lilás tem uma multitude de significados, podendo ser uma celebração das mulheres que sobreviveram e permanecem aqui, um lamento pelas que se foram e um reconhecimento das que constroem redes todos os dias. São mulheres que acolhem amigas em casa, acompanham mães e parentes a delegacias, escutam sem julgar e percebem o perigo, mesmo antes que ele seja admitido em voz alta, acendendo um alerta em experiências que são tão comuns para nós, infelizmente. Essa rede sustenta a mulher até que a proteção institucional se torne possível. É dela que gostaria de falar, também e sobretudo, porque, às vezes, enquanto mulheres, nos sentimos impotentes diante da violência e dos dados, mas estamos salvando umas as outras todos os dias, por meio de atos e palavras, existindo e coexistindo num mundo que insiste em tanto nos machucar, nos calar e nos silenciar até nos matar.

 

O feminismo oferece um lugar para nós, para as mulheres em sua multitude e dissidência. É um campo de questionamento e escuta, que abraça e tensiona nossos atravessamentos e permite a luta contínua. O espaço de luta nos permite humanizar os dados e buscar compreendê-los. É um lugar onde o medo e a raiva se tornam combustível para a criação. Nós, mulheres, em sua raça, classe, sexualidade, território e história. Nós, mulheres, para além da violência, uma potência.

 

Nós mulheres que lutamos por proteção, nós Mulheres que, como Maria da Penha, pegaremos nossas dores e faremos algo maior com ela. Me emociona o quão longe chegamos, apesar dos desafios, e ver como esses desafios são vírgulas, mas nunca um ponto final, essa é uma história que não termina conosco, mas continua com tantas outras que virão.

 

Em julho de 2026, o governo federal instituiu o Programa Alerta Mulher Segura e o Sistema Nacional de Informações Mulher Segura, regulamentando a monitoração eletrônica de agressores e prevendo uma unidade portátil capaz de alertar a mulher e a polícia quando houver violação do perímetro de exclusão. Também ampliou a divulgação do Ligue 180 e criou um mecanismo de transferência automática da pensão alimentícia, o que demonstra o compromisso com as demandas das mulheres.

 

Me lembro de Donna Haraway, ao pensar o ciborgue em seu Manifesto, mostrando-nos que tecnologias e poder estão implicados em nossos corpos. Penso no quão longe chegamos, pois hoje, por meio de instituições, temos novas tecnologias de proteção. Evidencia-se o caráter preventivo e plural, com a capacidade do Estado de agir antes de uma nova agressão, pensando também em outras formas de violência, como a patrimonial, com o não pagamento de pensão alimentícia. Contudo, embora fique claro quão longe chegamos, é igualmente importante rememorar que as tecnologias devem ser acopladas e não substitutas do calor humano, não se pode desumanizar o acolhimento de uma mulher que já chega fragilizada por um ciclo de perda de autonomia e colocá-la para falar com um robô. É preciso ter gente na linha de frente.

 

Um alerta precisa encontrar uma equipe multidisciplinar preparada para responder e acompanhar os chamados, necessitando, igualmente, estar articulado a políticas de renda, moradia, educação, saúde e justiça. No Distrito Federal, a violência foi mais prevalente entre mulheres financeiramente dependentes, enquanto a rede de apoio apareceu como possível fator de proteção. A vigilância, portanto, não substitui as demais políticas públicas, devendo-se considerar as particularidades da realidade de cada mulher.

 

Falar do Distrito Federal é um manifesto, pois a violência atravessa nossas cidades, nossas relações e, muitas vezes, as histórias que ouvimos dizer. Que o Agosto Lilás nos lembre, então, de permanecer próximas, e do quanto alcançamos com essa proximidade. É assim que seguimos ampliando as redes e caminhos de existência umas das outras.

 

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