Fátima de Souza Freire
No dia 11 de setembro, o Brasil celebra o Dia Nacional do Cerrado. A data deveria servir menos como uma homenagem simbólica e mais como um chamado à ação. O Cerrado sustenta nascentes, regula o clima, armazena carbono, abriga uma biodiversidade extraordinária e dá suporte a atividades econômicas essenciais. Quando ele é degradado, não perdemos apenas vegetação: perdemos água, estabilidade climática, serviços ecossistêmicos e capacidade de desenvolvimento.
Durante muito tempo, a proteção ambiental foi tratada como custo. Essa visão precisa mudar. Restaurar áreas degradadas é investimento público, econômico e social. Em pesquisa desenvolvida na Universidade de Brasília e reconhecida no IX Prêmio Serviço Florestal Brasileiro em Estudos de Economia e Mercado Florestal, analisamos dados de desmatamento, gastos públicos ambientais, custos de restauração e potencial de geração de créditos de carbono em Goiás, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal.
Os resultados mostram que existe uma janela econômica para ampliar a restauração. Em um cenário favorável, com horizonte de 30 anos, os projetos analisados apresentaram custo médio entre aproximadamente R$ 70 e R$ 88 por tonelada de CO₂ equivalente removida, com retorno simples estimado entre 9,5 e 12 anos. Cada hectare restaurado pode gerar cerca de 336 toneladas de CO₂ equivalente ao longo desse período, além de benefícios que não aparecem integralmente na conta financeira: proteção da água, recuperação do solo, conservação da biodiversidade, redução de riscos e geração de empregos verdes.
Um resultado particularmente importante foi a relação observada entre continuidade do gasto público ambiental e redução do desmatamento. Onde houve maior regularidade e fortalecimento institucional, os resultados ambientais foram mais consistentes. Isso indica que política ambiental não pode depender apenas de ações emergenciais, de ciclos fiscais ou da vontade de um governo. Precisa de planejamento, orçamento, capacidade técnica e continuidade.
Também aprendemos que o principal desafio já não é apenas saber quanto custa restaurar ou quanto vale uma tonelada de carbono. O desafio é executar em escala. Para isso, são necessários viveiros, logística, equipes capacitadas, monitoramento, financiamento de longo prazo, segurança jurídica e articulação entre governos, proprietários, comunidades, empresas e universidades.
É nesse ponto que a universidade pública tem papel decisivo. A UnB está inserida no coração do Cerrado e pode contribuir conectando ciência, formação, inovação e políticas públicas. A restauração ecológica demanda conhecimento interdisciplinar: é preciso compreender a ecologia, mas também os custos, os instrumentos financeiros, a governança, a mensuração dos resultados e os impactos sociais. Educação ambiental, nesse contexto, não é apenas transmitir informação; é formar capacidade para decidir melhor sobre o território.
No Dia Nacional do Cerrado, a pergunta não deveria ser apenas quanto custa restaurá-lo. Deveríamos perguntar quanto custará não restaurá-lo. Adiar a recuperação significa aumentar passivos ambientais, econômicos e sociais. O Cerrado degradado representa perda. O Cerrado restaurado pode se transformar em patrimônio natural, ativo climático e oportunidade de desenvolvimento.
Restaurar hoje é preservar possibilidades para o futuro. E essa decisão precisa começar agora.
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