Gregório Soares Rodrigues
No dia 17 de setembro, a Casa Niemeyer será a primeira edificação da Universidade de Brasília a receber o Selo CAU/DF – 2026. O reconhecimento atribuído pelo Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Distrito Federal valoriza a relevância da Casa para a arquitetura moderna não monumental e as boas práticas de sua conservação, mas também nos oferece uma oportunidade para pensar o patrimônio cultural universitário e a responsabilidade de preservá-lo, valorizá-lo e mantê-lo vivo.
Projetada no início dos anos 1960 para ser residência de Oscar Niemeyer, a Casa, de perfil campestre, ocupa um lugar singular entre as demais obras do arquiteto. Seu desenho, de escala doméstica e estreita relação com o jardim, guarda uma dimensão menos habitual e mais íntima se comparada aos demais projetos monumentais do arquiteto em Brasília. O que parece revelar uma contradição, na verdade, sugere outras formas de pensar a nossa tradição cultural e a formação da arquitetura moderna brasileira, bem como seu rastro colonial. Com maior atenção, vemos a dimensão longilínea avarandada, a cobertura com telhas de barro, as aberturas seriadas com estreitos púlpitos para a entrada, em diálogo franco com a sinuosidade da piscina, o alpendre suspenso por pilares externos, a iluminação natural, o conforto térmico e a obra Guanabara de Alfredo Ceschiatti.
De lá para cá, a Casa Niemeyer foi utilizada por embaixadas e acolheu eventos dispersos até passar a integrar o patrimônio imobiliário da UnB, no início dos anos 1980. Posteriormente, foi ocupada pelo antigo Cespe, atual Cebraspe, sediando eventos de integração institucional. E, desde 2017, torna-se objeto de um esforço estratégico da Diretoria de Difusão Cultural do Decanato de Extensão, em parceria com diversas unidades acadêmicas e administrativas, para a consolidação de uma política cultural das Casas Universitárias de Cultura, ao lado da Casa da Cultura da América Latina (CAL), do Espaço da Memória (MemoUnB) e do Memorial Darcy Ribeiro (Beijódromo), com a criação de uma rede de espaços, com distintas perspectivas, que busca aproximar a Universidade da sociedade. Desde então, esta experiência tem nos mostrado que a valorização patrimonial pode caminhar junto à extensão universitária, à produção artística, à educação e à democratização do acesso à cultura.
Entendemos, no entanto, que a Casa Niemeyer não está sozinha. A UnB possui um patrimônio cultural e vivo sem precedentes, distribuído por diferentes espaços, práticas e tempos de sua história. Está também nos edifícios que integram o sítio histórico da Universidade, nos SGs, na Faculdade de Educação, nas Ocas, na Biblioteca Central, no ICC, na Colina, em seus museus, acervos e coleções, no mobiliário moderno produzido para suas primeiras atividades, nos projetos paisagísticos, na vida e na produção artística e científica de seu corpo discente, técnico e docente e em tantos outros lugares que, além de abrigarem atividades acadêmicas e administrativas, constituem referências materiais e imateriais únicas da experiência universitária e cultural brasileira. A UnB é, por excelência, um espaço de formação para a “síntese das artes”. Preservar este patrimônio é também preservar uma parte do projeto moderno de Brasília, de integração mútua entre obras de arte e a vida da cidade, não apenas no que se expressa em seus edifícios e monumentos, mas que apostou na criação da universidade como um espaço de experimentação artística, científica e social.
Esse conjunto patrimonial forma uma espécie de cartografia da Universidade e do país, uma paisagem na qual arte, arquitetura, ciência, educação, política pública e vida cotidiana se encontram. Preservá-lo é uma tarefa de gestão, um compromisso permanente. Significa reconhecer que os edifícios da UnB não são apenas espaços funcionais para a realização do tripé universitário - ensino, pesquisa e extensão. São também instrumentos de reconhecimento do que é a universidade e seu papel institucional diante de desafios internos, relacionados ao cuidado e à manutenção, e externos, relacionados à afirmação de sua relevância na formação social e de seu compromisso público com a produção de conhecimento.
A Casa Niemeyer seguirá cumprindo seu atual papel, recebendo diferentes públicos interessados na obra do arquiteto, acolhendo exposições de arte, arquitetura, fotografia, cinema, música e outras atividades da comunidade, ao mesmo tempo em que buscamos criar estratégias cada vez mais qualificadas para sua conservação. O primeiro e simbólico Selo não é, portanto, um ponto de chegada, mas uma oportunidade para que a Universidade possa seguir reconhecendo, de maneira estratégica e sistemática, a importância do conjunto de seu patrimônio cultural e fortalecendo as ações necessárias à sua preservação e difusão.
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