Maíra Rocha Santos
Quando pensamos em universidade, ainda imaginamos salas, bibliotecas, laboratórios e encontros. Mas uma parte crescente da vida universitária também passou a acontecer diante das telas. Matrículas, disciplinas, formulários e serviços compõem aquilo que podemos chamar de campus digital.
Imagine um candidato tentando se inscrever em um processo seletivo. O formulário abre, mas não funciona pelo teclado, ou seus campos não são lidos corretamente por um leitor de tela. A barreira aparece antes mesmo de a pessoa chegar à universidade. E aquilo que parecia um detalhe técnico passa a interferir no acesso a uma oportunidade, a um serviço e, em muitos casos, a um direito.
Universidades públicas também prestam serviços digitais. Por isso, acessibilidade não é apenas uma escolha de projeto. A Lei Brasileira de Inclusão estabelece a obrigação; a WCAG 2.2 e a ABNT NBR 17225:2025 oferecem referências técnicas para tornar os ambientes digitais mais acessíveis.
Ainda assim, cumprir critérios, por si só, não resolve tudo. Uma interface pode estar mais próxima da conformidade técnica e continuar difícil de compreender ou usar. Por isso, é preciso olhar para pessoas, tarefas e contextos. Pessoas com deficiência precisam participar desse processo, não apenas aparecer no final como destinatárias da solução. O mesmo vale para pessoas idosas e para quem tem pouca familiaridade digital.
Quando essa perspectiva não é incorporada, a barreira ultrapassa a tela e passa a afetar a própria experiência de acesso ao serviço. Ela pode significar demora, dependência de terceiros, abandono de uma tarefa ou até desistência. É por isso que acessibilidade digital também é uma questão de gestão. Uma interface acessível depende de quem programa, mas também de quem planeja, contrata, define prioridades, organiza processos, coordena equipes e acompanha resultados.
É nesse ponto que diferentes áreas se encontram. Design, Engenharia de Software, Comunicação, Administração e Políticas Públicas podem olhar para o mesmo serviço por perspectivas distintas e complementares. A acessibilidade deixa de caber em uma única especialidade e passa a ser uma competência compartilhada.
A universidade pode, então, transformar essa interdisciplinaridade em aprendizagem concreta. Disciplinas, projetos de extensão e trabalhos de conclusão de curso podem tomar os sistemas da própria universidade como objetos de estudo, aproximar estudantes de desafios reais e envolver diferentes perfis de usuários nas avaliações. O campus digital torna-se, assim, um laboratório vivo de acessibilidade.
Talvez a pergunta “quem consegue entrar no campus digital?” não sirva apenas para identificar barreiras. Ela pode orientar a formação de quem projetará, contratará e avaliará os próximos serviços digitais. Quando aprendemos a perguntar para quem uma tecnologia funciona, começamos a construir ambientes em que mais pessoas possam entrar, permanecer e participar com autonomia.
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