Isabel Schmidt e Potira Hermuche
Estamos no coração do Cerrado, a savana mais biodiversa e mais ameaçada do mundo. Muitas vezes, conviver com o Cerrado é conviver com o fogo. O Cerrado queima naturalmente há quatro milhões de anos, em incêndios iniciados por raios, durante a estação chuvosa, e especialmente durante a transição da seca para a chuva. Esta convivência com o fogo natural selecionou características em nossas plantas que as permitem sobreviver ao fogo.
Isso, entretanto, não significa que qualquer fogo seja natural ou benéfico para o Cerrado. Na estação seca não há raios, por isto todo fogo iniciado neste período tem origem humana. De todos os fogos detectados no Cerrado atualmente, mais de 90% são provocados por ignição humana e, se não estiverem sob controle, podem gerar muitos danos.
É importante, então, distinguir o fogo como processo ecológico do Cerrado dos incêndios descontrolados. O primeiro faz parte da dinâmica de muitos ecossistemas do bioma enquanto o segundo pode colocar em risco pessoas, edificações, fauna, flora e patrimônio. O objetivo da prevenção não é excluir qualquer fogo, mas evitar incêndios indesejados e reduzir seus danos e riscos.
A frequência, a época, a intensidade e a extensão do fogo são determinantes. Incêndios recorrentes, intensos podem causar perda de biodiversidade, mortalidade de plantas e animais e degradação ambiental. Áreas com capins exóticos e outras espécies invasoras (como a cana-do-reino e o girassol mexicano, ou flor-do-mel), aumentam o risco de propagação de incêndios, pois geram grandes quantidades de biomassa seca durante a estiagem, aumentando a velocidade e a intensidade do fogo. Por isso, o controle dessas espécies é uma medida importante de prevenção de incêndios.
Além disso, o grande número de pessoas circulando na UnB e no DF em geral aumenta a chance de que alguém inicie um fogo que saia do controle, tornando-se um incêndio na estação seca. A situação é potencialmente mais destrutiva quando as ignições são feitas em momentos críticos, como calor, secura e ventos fortes.
A maior parte das áreas dos campi da UnB é muito segura contra a propagação de incêndios, por não haver áreas com vegetação alta ou acumulada e pelo controle das espécies invasoras. Outro exemplo de medida institucional adotada em todos os campi é a manutenção de aceiros, ou seja, áreas em que a vegetação é cortada em volta de prédios e/ou dos espaços verdes.
Em geral, o maior problema relacionado a um incêndio nas dependências da UnB é a fumaça, que pode se deslocar por distâncias muito maiores que a frente de fogo e reduzir a visibilidade e a qualidade do ar. Pessoas com doenças respiratórias, idosos, crianças e outros grupos mais vulneráveis devem ter atenção especial durante episódios de fumaça intensa.
Em caso de incêndios ao redor ou nos campi da UnB, fique atento:
- Incêndios no Cerrado tendem a ser muito rápidos na época de seca;
- O fogo avança mais rápido morro acima e a favor do vento, isto precisa ser considerado na hora de reagir. A direção e a velocidade do vento podem mudar e, portanto, nunca se deve considerar apenas a posição atual das chamas para decidir se um local é seguro;
- As chamas são mais altas em áreas com vegetação mais alta, e menores em áreas com vegetação mais baixa;
- A prioridade é proteger vidas. Pessoas sem treinamento e equipamentos adequados não devem tentar combater incêndios florestais.
O que fazer:
- Acione os bombeiros (Ligue 193);
- Ligue também para o Plantão de Segurança da UnB: (61) 3107-6222;
- Registre a localização do incêndio para poder repassá-la aos Bombeiros;
- Avise as pessoas próximas e siga as orientações das equipes de segurança, brigadistas e Corpo de Bombeiros;
- Para se refugiar, encontre áreas SEM vegetação ou com mínima presença de material combustível;
- Vá organizadamente para locais seguros;
- Auxilie pessoas com dificuldade de locomoção, se necessário;
- Afaste-se das chamas e, sempre que houver uma rota segura, desloque-se para o lado oposto ao avanço do fogo e da fumaça. Evite permanecer a favor do vento;
- Não bloqueie vias de acesso que possam ser utilizadas pelos veículos do Corpo de Bombeiros e pelas equipes de emergência;
- Não atravesse áreas com chamas ou fumaça densa para tentar alcançar outro local;
- O lugar mais seguro em um incêndio pode ser uma área já queimada. Se for seguro chegar até ela, observe se houve resfriamento do solo (que acontece em minutos) e cuidado com brasas no chão.
Recomendações para abrigo em edificações seguras:
- Feche e molhe portas e janelas;
- Coloque panos molhados nas frestas de portas e janelas;
- Se possível, desligue sistemas de ventilação ou ar-condicionado que estejam puxando ar externo carregado de fumaça;
- Fique sentado no chão, deitado ou agachado, pois a fumaça tende a subir;
- Mantenha-se mais próximo ao chão durante o deslocamento para a saída, pois o ar tende a estar menos quente e menos contaminado nas partes mais baixas;
- Respire com panos úmidos, protegendo nariz e boca.
Recomendações para equipes de segurança e gestores de unidades:
- Faça o cadastro nos sistemas de alertas disponibilizados pela Reitoria;
- Feche todas as saídas de gás;
- Desligue chaves de energia;
- Molhe o máximo possível as áreas em volta das edificações com mangueiras ou sistemas de irrigação.
*As pesquisadoras que assinam esse artigo integram o Comitê de Enfrentamento às Emergências Climáticas, iniciativa da Universidade de Brasília para discutir estratégias e implementar ações institucionais para minimizar os impactos das mudanças do clima nos campi da UnB e no Distrito Federal.
ATENÇÃO – O conteúdo dos artigos é de responsabilidade do autor, expressa sua opinião sobre assuntos atuais e não representa a visão da Universidade de Brasília. As informações, as fotos e os textos podem ser usados e reproduzidos, integral ou parcialmente, desde que a fonte seja devidamente citada e que não haja alteração de sentido em seu conteúdo.


