Juliana Martins Pinto
O Dia Internacional da Pessoa Idosa, celebrado em 1º de outubro, é um momento de reflexão, mobilização e defesa dos direitos das pessoas idosas. No Brasil, essa data adquire significado ainda mais relevante diante de um processo de envelhecimento populacional acelerado e marcado por profundas desigualdades sociais, econômicas e territoriais. Embora importantes avanços tenham sido conquistados nas últimas décadas, ainda observamos ameaças constantes à garantia de direitos, a persistência do idadismo em diferentes espaços da sociedade e o frequente apagamento das pautas relacionadas ao envelhecimento nas agendas de investimento, pesquisa e formulação de políticas públicas.
Nesse contexto, o Observatório da Longevidade, grupo de pesquisa da Universidade de Brasília, celebra importantes conquistas que reforçam o compromisso da ciência com a construção de uma sociedade mais inclusiva, justa e preparada para envelhecer. No último dia 25 de setembro de 2026, realizamos o I Encontro Científico do Observatório da Longevidade, reunindo pesquisadores, profissionais, estudantes, gestores e membros da comunidade em um espaço de diálogo, troca de conhecimentos e construção coletiva. Durante o evento, foram lançadas duas iniciativas. A primeira foi o Guia de Cuidados para o Pós-operatório de Fratura de Fêmur, desenvolvido em parceria com a equipe do Hospital de Base do Distrito Federal, com o objetivo de apoiar pacientes, familiares e cuidadores na transição do cuidado, uma etapa crítica para a recuperação funcional e a qualidade de vida após a alta hospitalar. A segunda foi o LABPOP-Longevidade, um espaço dedicado à popularização da ciência, criado para aproximar a produção científica da sociedade e fortalecer o protagonismo social na construção do conhecimento sobre envelhecimento e longevidade.
Também celebramos a conclusão da linha de base de um estudo longitudinal com a avaliação de aproximadamente 200 pessoas idosas residentes em Ceilândia e Samambaia, que integrarão a amostra nacional do Estudo ICOPE Brasil, projeto multicêntrico inspirado na abordagem de cuidados integrados para pessoas idosas recomendada pela Organização Mundial da Saúde e do qual a Universidade de Brasília participa como um dos centros colaboradores. Essas ações reforçam o papel da universidade pública na formação científica e profissional, bem como na produção de conhecimentos e evidências capazes de apoiar a sociedade.
A ciência tem papel fundamental na produção de evidências capazes de orientar decisões, qualificar serviços e promover o envelhecimento saudável. Entretanto, nenhum avanço será sustentável sem uma estreita integração com a comunidade. A participação social das pessoas idosas nos processos decisórios, na formulação de projetos, produtos e políticas, bem como no monitoramento de sua implementação, é essencial para garantir que as ações desenvolvidas respondam às necessidades, expectativas e prioridades reais da população.
O Brasil ainda avança lentamente na incorporação de modelos de cuidados integrados e na revisão de programas historicamente centrados em doenças específicas e na atenção especializada. O envelhecimento populacional desafia esses paradigmas e exige novas formas de organização do cuidado, fundamentadas na promoção da capacidade funcional, na prevenção de agravos, na interdisciplinaridade, na coordenação dos serviços e no respeito à autonomia das pessoas idosas. Exige, igualmente, investimento contínuo na formação e atualização de profissionais, pesquisadores e gestores, bem como o fortalecimento do Sistema Único de Saúde e da Atenção Primária à Saúde como pilares fundamentais para responder às demandas de uma população que envelhece rapidamente.
Envelhecer com dignidade, participação, proteção social e qualidade de vida não deve ser um privilégio, mas um direito de todas as pessoas. A ciência, quando construída em diálogo permanente com a sociedade, é uma das ferramentas mais poderosas para transformar essa visão em realidade.
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