OPINIÃO

Diana Vaz de Lima é professora e pesquisadora no Departamento de Ciências Contábeis e Atuariais e no Programa de Pós-Graduação Profissional em Administração Pública da Universidade de Brasília. 

Diana Vaz de Lima

 

Vivemos em uma época em que a pressa substituiu a pausa, e a estabilidade deu lugar a uma incerteza constante. O célebre sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman (2001) cunhou o termo "modernidade líquida" para descrever uma sociedade onde tudo (relações, identidades e valores) se tornou volátil, passageiro e descartável. Conforme apontam Monteiro, Rios e Costa (2020) em estudo publicado na revista HumanÆ, o sujeito contemporâneo é impulsionado por uma busca constante de reinvenção, moldando a si e aos outros sob a lógica implacável de um tempo que não tolera raízes.

 

Nesse cenário de fluidez extrema, o impacto mais profundo e contundente recai sobre os ciclos da vida, tornando o envelhecimento o estágio que mais exige nossa atenção coletiva. Enquanto a modernidade sólida valorizava a acumulação de experiência, sabedoria e a perenidade das fases existenciais, a liquidez contemporânea desorganiza a linha do tempo humana. Afinal, o que acontece quando a dinâmica veloz e focada no agora colide com um dos processos mais naturais, universais e irredutíveis da existência: o envelhecimento?

 

A vida humana é composta por diferentes etapas de desenvolvimento em constante transição. Como observa Santos (2025), em diversas culturas ocidentais a velhice é frequentemente associada a estereótipos distorcidos de passividade e declínio, o que subestima severamente a riqueza de vivências de quem envelhece. Esse fenômeno, amplamente conhecido como etarismo, desestabiliza a autoimagem e a inserção social dos mais velhos, exigindo estratégias ativas que reforcem sua autonomia, dignidade e vitalidade em meio a estruturas sociais que parecem ignorar a maturidade.

 

Diferente de outras fases que o mercado tenta absorver e transformar em ciclos de consumo acelerado, o envelhecimento carrega uma solidez biológica e existencial que desafia a lógica líquida. Na sociedade descrita por Bauman (2004, 2008), o etarismo ganha novas e perversas roupagens: a velhice passa a ser tratada não como uma etapa coroada de significado, mas como um defeito a ser ocultado, gerando uma cobrança implícita e desumana para que o corpo permaneça hiperativo, produtivo e eternamente jovem. Além disso, a exigência de uma hiperconectividade digital constante acarreta novas exclusões, empurrando o idoso para a margem de um mundo virtual que desconsidera o seu ritmo próprio.

 

É exatamente por isso que precisamos redirecionar o olhar para os ciclos da vida. O grande problema da liquidez é que, à medida que os laços sociais enfraquecem e a empatia cede espaço ao individualismo exacerbado, as pessoas que envelhecem enfrentam um duplo desafio estrutural. De um lado, lidam com a invisibilização e com o preconceito etário; do outro, sofrem com a cobrança de corresponder a um ideal superficial que desconsidera os limites reais e as belezas inerentes à maturidade.

 

Como o próprio Zygmunt Bauman (2004) alertou em suas reflexões sobre a fragilidade dos vínculos humanos, em um mundo que descarta o que perde o brilho imediato, os idosos correm o risco de se tornarem as grandes vidas desperdiçadas da modernidade. Isso evidencia que a reflexão sobre o envelhecimento não pode ser tratada como um tema secundário ou restrito à gerontologia: ela é central para a sobrevivência ética da nossa sociedade.

 

É urgente compreender, enquanto coletivo, que o envelhecimento chega para todos. Ignorar essa realidade ou tentar tratá-la como uma falha de percurso é negar o próprio ciclo natural da humanidade e a nossa própria condição futura. Nos novos tempos, as estruturas sociais, as políticas públicas e as relações cotidianas precisam considerar a longevidade não como um fardo ou um problema a ser administrado, mas como uma conquista coletiva que exige respeito profundo e acolhimento institucional.

 

Para contrapor essa lógica excludente dos ciclos vitais acelerados, iniciativas como programas intergeracionais que promovem a troca horizontal de saberes entre jovens e idosos ajudam a mitigar as expectativas sociais limitantes e a combater a solidão. Refletir criticamente sobre esses temas dentro de um espaço plural, crítico e transformador como a Universidade de Brasília (UnB) demonstra que um envelhecimento ativo e digno não se sustenta na negação do tempo, mas no fortalecimento de vínculos comunitários sólidos e na valorização vibrante da memória coletiva.

 

Repensar a modernidade líquida à luz do envelhecimento exige um compromisso civilizatório. Significa resgatar sabedorias acumuladas, cultivar relações de afeto profundas e transformar o tempo livre não em uma corrida estressante contra o relógio, mas em uma oportunidade plena de cidadania e pertencimento. Afinal, o verdadeiro sentido da longevidade se constrói na partilha genuína de experiências e no direito inalienável de envelhecer com dignidade, lembrando sempre que o cuidado com quem envelhece é, em última análise, o cuidado com o futuro de todos nós.

 

Referências

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos relacionamentos humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.

BAUMAN, Zygmunt. Vida para consumo: a transformação das pessoas em mercadoria. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.

MONTEIRO, Daysiane Silva; RIOS, Zara Araújo; COSTA, Maria de Fátima Batista. Modernidade Líquida: uma discussão sobre o sujeito contemporâneo. HumanÆ. Questões controversas do mundo contemporâneo, v. 14, n. 1, 2020.

SANTOS, Nessyane Messias. Desafios e superação nos ciclos da vida. Florianópolis, SC: Arqué, 2025.

 

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