OPINIÃO

Luciana Hartmann é professora do Departamento de Artes Cênicas e do Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas da UnB. Coordenadora da Cátedra Sérgio Vieira de Mello da UnB. Bolsista de Produtividade em Pesquisa do CNPq e mãe.

Luciana Hartmann

 

Há alguns anos atrás, Anne, uma menina imigrante da Romênia, de 9 anos de idade, me contou uma história. O título era “A Guerra Mundial”. Nela havia um menino e uma menina que amavam brincar de guerra mundial. Eles tinham uma amiga que amava a guerra também. Um dia, perto do Natal, as meninas queriam brincar de princesa e o menino queria continuar a brincar de guerra. Depois de duas semanas aconteceu uma guerra mundial de verdade, mas as crianças não tiveram medo. Eles queriam parar a guerra. Então eles falaram com os responsáveis e a guerra acabou.

 

Não é casualidade o fato de que, tanto a narradora quanto as duas outras crianças mencionadas na história estivessem vivenciando processos migratórios – muitos deles promovidos por guerras e conflitos armados. Também não é casualidade que as crianças sejam as protagonistas da história.

 

Muitas vezes temos dificuldade em compreender que as crianças não apenas brincam, mas também pensam, agem e refletem sobre o que está acontecendo no planeta, assim como nas suas vidas e nas vidas de seus familiares. Tenho trabalhado há muitos anos com crianças migrantes e refugiadas e elas têm me ensinado sobre os processos de deslocamento humano, sobre trauma, sobre resiliência, sobre encontros, sobre perdas, sobre “começar uma nova vida” e, sobretudo (e apesar de tudo), sobre os múltiplos sentidos do brincar.

 

A antropóloga Clarice Cohn, no livro Antropologia da Criança (2005), defende a “agência” das crianças. O que isso significa? Que as crianças criam seu próprio sistema simbólico e fazem suas próprias interpretações do mundo, que elas têm um papel ativo nos processos sociais – queiramos ou não.

 

Dados do UNICEF demonstram que cerca de 2,3 bilhões de pessoas, ou aproximadamente 30% do total de habitantes do planeta, é formado por menores de 18 anos. Nós, adultos, compreendemos, de fato, que as crianças são sujeitos de direito, agentes sociais, e que somos responsáveis pela garantia dos direitos delas? Estamos ouvindo nossas crianças? O que fazemos a partir essa escuta?

 

A proteção às crianças deve vir de mãos dadas com o respeito por elas. Respeito pelo que sabem e pelo que podem nos ensinar, justamente, sobre ser criança. Proteção e respeito são gestos políticos.

 

Pensando nisso, entre 2022 e 2023, criamos, em parceria com crianças da Escola Parque 210/211 Norte e da Escola Básica do Castelo, de Lisboa, um jogo de cartas dos Direitos das Crianças. Elas foram “co-pesquisadoras” e “co-criadoras” durante todo o processo (Hartmann, Castro e Silva, 2025). Ao disputarem a carta com maior pontuação em “Educação” ou “Alimentação e Saúde”, elas aprendem (e ensinam) sobre seus direitos.

 

As crianças em situação de vulnerabilidade socioeconômica, as negras, indígenas, quilombolas, do campo, da cidade, das águas, das florestas, as migrantes, refugiadas, que integram o público da educação especial, todas precisam ter acesso ao conhecimento.

 

No artigo 4º, que determina os Objetivos do Plano Nacional de Educação 2026-2036, está previsto:

 

I – garantir o direito à educação, com ampliação das oportunidades educacionais em todos os níveis, etapas e modalidades, assegurado o padrão de qualidade, com vistas à formação humanística, profissional, cultural, científica, tecnológica, crítica, criativa e cidadã dos estudantes.

 

As universidades públicas, e mais especificamente nós, da Universidade de Brasília, somos parte deste pacto.

 

Retomo então a pergunta que dá título a este artigo “O que vamos comemorar no Dia das Crianças?” Nossas crianças, sem dúvida, ainda têm muito a conquistar, como cidades mais acessíveis, espaços mais acolhedores nos locais de trabalho e de estudo de seus cuidadores, direito a voz em instâncias decisórias que lhes digam respeito, entre muitas outras coisas. Podemos comemorar, contudo, a parceria. Estamos juntas neste planeta, neste país chamado Brasil, neste 12 de outubro de 2026. E assim como podemos brincar, de guerra e de paz, juntas defenderemos a democracia, a soberania e a liberdade.

 

Referências

BRASIL. Lei nº 15.388, de 14 de abril de 2026. Aprova o Plano Nacional de Educação (PNE) e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 15 abr. 2026.
COHN, C. Antropologia da Criança. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.

HARTMANN, L.; CASTRO, A. C. S.; SILVA, A. L. R. da. Entre o Parque e o Castelo: a criação compartilhada do "Jogo dos Direitos das Crianças" entre estudantes de escolas públicas no Brasil e em Portugal. In: HARTMANN, L. et al. (Org.). Infâncias migrantes e refugiadas: acolher com arte e educação. São Paulo: Pimenta Cultural, 2025, p. 189-205.

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