Gustavo Souto Maior Salgado
Brasília possui, em sua área urbana, um patrimônio natural extraordinário. O Parque Nacional de Brasília protege mais de 42 mil hectares de Cerrado, conserva biodiversidade, protege mananciais importantes para o abastecimento de água, abriga pesquisas científicas e oferece contato direto com a natureza a poucos quilômetros de casa. Para milhares de brasilienses, a porta de entrada para esse patrimônio é a Água Mineral, zona de uso público do parque.
O parque vale muito mais do que as piscinas da Água Mineral. Mas é por meio delas que esse patrimônio se transforma em lazer, convivência, educação ambiental e qualidade de vida.
Desde fevereiro, as duas piscinas — Pedreira e Areal — permanecem fechadas ao público. São mais de sete meses sem esse espaço de lazer, em contato com a natureza.
A dimensão ambiental do parque começa pela água. A proteção dos mananciais que abasteceriam a nova capital esteve entre as razões para sua criação, em 1961. Dentro do parque, encontra-se o reservatório de Santa Maria, que integra o sistema de abastecimento de água do DF. E o Cerrado protegido pelo parque abriga fauna, flora, paisagens e processos ecológicos. São benefícios que dificilmente percebemos no cotidiano e mais dificilmente ainda aparecem nas contas públicas.
Mas o Parque Nacional de Brasília presta também outro serviço fundamental: oferece lazer e recreação. Em 2023, foram registradas 300.603 visitas, colocando-o entre os 10 parques nacionais mais visitados do país. O próprio ICMBio identifica as piscinas como seus principais atrativos. Ali, águas naturais e paisagem do Cerrado oferecem uma experiência singular. Uma combinação valiosa em uma grande cidade: água mais natureza.
Essa experiência tem valor econômico, que não se confunde com o preço do ingresso. Estudo científico publicado em 2022 na revista Ciência Florestal, com aplicação do Método do Custo de Viagem, estimou em aproximadamente R$ 138 milhões anuais, em valores do estudo, o benefício econômico associado ao uso recreativo do Parque Nacional de Brasília.
Não é arrecadação pública, mas estimativa do benefício econômico proporcionado aos visitantes. E não é o valor econômico total do parque: ficam fora dessa conta a proteção hídrica, a conservação da biodiversidade e outros serviços ambientais. Áreas protegidas geram benefícios econômicos, ambientais e sociais, que nem sempre possuem preço de mercado.
É sob essa perspectiva que precisamos avaliar o fechamento das piscinas, motivado por problemas técnicos. Mas, passados mais de sete meses, cabe perguntar: quanto custa à sociedade mantê-las fechadas por tanto tempo?
Os números de visitação ajudam a dimensionar o problema. Em janeiro de 2026, o parque recebeu 23.463 visitantes; em fevereiro, 11.791; em março, primeiro mês inteiro com ambas as piscinas fechadas, apenas 1.494. A queda entre janeiro e março foi de aproximadamente 94%. A dimensão da queda, justamente quando os principais atrativos se tornaram inacessíveis, exige atenção, pois evidencia a importância social das piscinas.
Cada visita que deixa de ocorrer significa mais do que um ingresso não vendido. Pode representar uma família privada de lazer acessível em contato com a natureza, uma criança sem a oportunidade de conhecer o Cerrado, menos recreação, atividade física e educação ambiental. São benefícios sociais reais, embora não apareçam diretamente nas contas do governo.
A redução expressiva no uso de um serviço recreativo estimado em R$ 138 milhões anuais indica um custo social relevante. Daí uma pergunta objetiva: quanto custa recuperar as piscinas e quanto custa à sociedade cada mês adicional de espera?
Conservar o Parque Nacional de Brasília preserva o patrimônio natural. Mantê-lo adequadamente acessível transforma parte desse patrimônio em qualidade de vida. As piscinas possuem função social especial: são uma das principais formas pelas quais esse capital natural se converte em bem-estar para a população. A recuperação segura das piscinas precisa receber prioridade compatível com sua importância ambiental, econômica e social.
Porque cada mês adicional de piscinas fechadas tem um custo. Ele pode não aparecer no orçamento público nem nas contas do parque. Mas com certeza quem o está pagando é a sociedade.
Publicado originalmente, em 14 de outubro, no portal Correio Braziliense.
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