Josivania Farias, Lucas Ferreira e Mariana Sales
A violência contra a mulher constitui um grave problema social e jurídico, enraizado em relações históricas de desigualdade de gênero. Não se trata de um problema distante: é uma patologia social que atravessa fronteiras, classes e gerações e viola direitos fundamentais, entre eles “o direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal” (ONU, 1948). Diante de um quadro assim, a pergunta que a universidade pública precisa se fazer é: o que a pesquisa pode entregar à sociedade, e com que rapidez?
É nesse espírito que nasce o AMPIS, aplicativo de apoio, monitoramento e proteção à mulher. A ideia parte de uma constatação incômoda: muitas vítimas não chegam a denunciar seus agressores, e a assistência não deveria depender disso. A literatura destaca a importância de apoiar as vítimas independentemente da formalização da denúncia (Arponen et al., 2023). Ao mesmo tempo, estudos indicam que aplicativos móveis podem tornar mais eficiente a interação entre cidadãos e órgãos públicos (Alameri et al., 2022) e facilitar a notificação de crimes e a coleta de informações (Stardust et al., 2023).
Mas a tecnologia, sozinha, não resolve este wicked problem. O enfrentamento da violência contra a mulher exige compromisso de todo o Estado, e não apenas do Poder Judiciário (Ávila, 2014). É aí que as políticas públicas se tornam indispensáveis. As tecnologias da informação podem simplificar serviços, agilizar o acesso à informação e ampliar a capacidade de resposta das instituições (Alves & Moreira, 2004), conectando órgãos que hoje atuam de forma fragmentada. Uma ferramenta inovadora só alcança seu potencial quando dialoga com a rede de proteção, com a segurança pública e com a saúde, e quando é desenhada com cuidado para respeitar a privacidade e o consentimento de quem a utiliza.
Esse é o sentido da inovação social: resolver problemas que os métodos tradicionais não resolvem (Bignetti, 2011). A tecnologia social, por sua vez, reúne produtos e metodologias replicáveis, bem como soluções práticas para a transformação da sociedade (Dagnino, 2014). O AMPIS se inscreve nessa tradição. Não é um fim em si mesmo, mas um instrumento para que o cuidado chegue a quem precisa, quando precisa.
Há ainda um ponto que consideramos central: o papel do empreendedorismo. Castells (2008) lembra que a criatividade e a iniciativa empreendedora intervêm nos processos de descoberta científica, de inovação tecnológica e de aplicação social. Uma boa pesquisa que permanece em relatórios e prateleiras não protege ninguém. Transformar conhecimento em solução exige colocar a ideia à prova, organizar uma equipe, buscar parcerias, sustentar o produto ao longo do tempo. Empreender, nesse contexto, não é abandonar a vocação pública da universidade. É dar a ela capilaridade. A inovação precisa atravessar os muros do campus e chegar às ruas, às casas e aos celulares das pessoas.
Por isso, defendemos que universidades, governos e o setor produtivo estimulem, de forma contínua, pesquisas que nasçam de problemas reais e tenham caminho até a sociedade. Isso significa financiar, apoiar a incubação, reconhecer o empreendedorismo acadêmico e formar estudantes capazes de unir rigor científico e ao senso de aplicação.
O impacto social é o que dá sentido a esse esforço. Cada mulher que encontra apoio a tempo, cada situação de risco identificada antes de se agravar, é uma prova de que a ciência e a tecnologia podem salvar vidas. O surgimento do AMPIS revela a interdisciplinaridade entre os cursos com os seguintes autores: Administração com a graduanda Mariana Veras e Manuela Veras; Engenharia de Software com o graduando Lucas de Oliveira; e Gestão de Políticas Públicas com a graduanda Alanys Oliveira, não pretende substituir a rede de enfrentamento à violência, mas fortalecê-la. E, se a universidade ajuda a construir essas pontes, cumpre a sua função mais elevada: servir à sociedade que a sustenta.
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