José Marilson Martins Dantas
A produtividade brasileira não avançou entre 2013 e 2025. Segundo cálculos baseados em dados do Banco Mundial, o PIB por pessoa ocupada recuou 0,28% no Brasil, enquanto cresceu 100,63% na China, 18,64% nos Estados Unidos e 10,92% na União Europeia.
Para entender a comparação, imagine que cada trabalhador produzisse 100 unidades em 2013. Em 2025, esse índice seria de 99,72 no Brasil, 200,63 na China, 118,64 nos Estados Unidos e 110,92 na União Europeia. Os números indicam a evolução de cada economia em relação à própria base, não seus níveis absolutos de produtividade.
A estagnação tem múltiplas causas, como investimento insuficiente, qualificação profissional, infraestrutura e tecnologia. O problema também se relaciona ao equilíbrio fiscal do governo federal, especialmente a necessidade do aumento da produtividade e da eficiência nas atividades operacionais do governo federal, ou seja, a entrega de serviço público.
Parte do desequilíbrio fiscal está relacionado ao déficit primário. Explicando esse conceito de forma simplificada podemos dizer o que ocorre quando as despesas primárias superam as receitas primárias, sem considerar os juros da dívida. Se o governo arrecada R$ 100 e gasta R$ 105, o déficit é de R$ 5. Essa diferença é o déficit primário que aumenta a necessidade de financiamento do governo federal.
A discussão desse tema, portanto, afeta à vida cotidiana das pessoas: Como preservar saúde, educação e investimentos e, ao mesmo tempo, controlar o déficit primário se gastamos mais que arredamos para manter as atividades operacionais do governo federal? Uma resposta está na Contabilidade Gerencial Pública.
Nas empresas, a contabilidade financeira registra a situação patrimonial e os resultados; a contabilidade gerencial orienta os empresários nas decisões sobre custos, desperdícios e desempenho. A contabilidade gerencial nas empresas utiliza modelos conceituais específicos para o setor privado que organiza informações para decisões dos gestores: quanto custa cada atividade, onde existem desperdícios e quais mudanças podem melhorar os resultados.
Para implementar a contabilidade gerencial em uma empresa, o gestor dispõe de modelos consolidados na literatura e de profissionais capacitados para aplicá-los. Para implantar a contabilidade gerencial no setor público ainda não temos essa maturidade conceitual que permitam aos gestores terem acesso a literatura abundante relacionadas a escolhas de modelos conceituais específicos para serem aplicados no setor público.
Apesar do governo aplicar anual 15% da sua receita corrente líquida na saúde, conforme dados controlados pela contabilidade financeira pública, de uma forma geral a percepção é que o crescimento da aplicação dos recursos não se materializa em melhores serviços de saúde. Um posto de saúde pode gastar mais que outro e precisamos entender se existe necessidade de mais recurso ou se podemos economizar recursos e utilizar mais melhorar a qualidade dos serviços de saúde.
Comparar custos exige modelos conceituais e operacionais específicos para o setor público que considerem aspectos qualitativos e quantitativos da gestão, qualidade e condições de atendimento. Implementar a contabilidade gerencial pública no governo federal permitirá oferecer informações comparáveis e auditáveis aos gestores dos níveis estratégico, tático e operacional, apoiando decisões que reduzem desperdícios e aumentam a eficiência.
É nesse espaço que se insere uma proposta baseada em pesquisa desenvolvida na Universidade de Brasília (UnB) propõe a implementação da medida geral de avaliação do Nível de Serviço Comparado (NSC), que relaciona custos auditáveis aos serviços prestados por unidades comparáveis. O acompanhamento mensal ajudaria a identificar retrabalho, estruturas ociosas e consumo excessivo de materiais, além de reconhecer boas práticas que possam ser replicadas. O objetivo é transformar a avaliação de custos em rotina de gestão.
A dimensão do desafio é grande. O orçamento federal de 2026 movimenta trilhões de reais. Como simulação, reduzir 3% de uma base de R$ 2,6 trilhões equivaleria a R$ 79 bilhões anuais. É um desafio institucional exigindo análise específica e preservação dos serviços.
A responsabilidade pela eficiência deve chegar a quem administra cada unidade. Conhecer custos, comparar resultados e acompanhar melhorias permite combater desperdícios sem recorrer a cortes indiscriminados. A boa gestão começa quando cada real gasto pode ser relacionado ao serviço entregue à população.
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