A educação como caminho para a autonomia de pensamento, a redução das desigualdades e a formação das novas gerações esteve no centro da participação da reitora da Universidade de Brasília (UnB), Rozana Naves, no painel Quem vai educar o Brasil do futuro?, realizado na terça-feira (27), no B Hotel. O debate integrou a edição brasiliense do Marie Claire Legados, evento que celebra os 35 anos da revista no país e reuniu mulheres de diferentes áreas para discutir educação, cidadania, memória, negócios e direitos.
A conversa também contou com a presença da professora Gina Vieira Pontes, criadora do projeto Mulheres Inspiradoras, e foi mediada por Daniela Tófoli, diretora editorial dos veículos Marie Claire, Quem, Crescer, TechTudo, Galileu, Monet e Casa e Jardim.
Ao discutir o papel da educação em um cenário de rápidas transformações tecnológicas, Rozana destacou que a formação educacional precisa ir além da transmissão de conteúdo. “É na educação que a gente produz a verdadeira autonomia de pensamento”, afirmou. Para a reitora, a universidade tem papel central na preparação de estudantes capazes de interpretar informações, formular perguntas e participar da sociedade de maneira crítica.
A trajetória da própria Rozana se relaciona com essa perspectiva. Licenciada em Língua Portuguesa, ela contou que a mãe, professora da educação básica em Taguatinga, foi uma de suas referências. A experiência familiar também marcou sua compreensão da educação pública como instrumento de ampliação de oportunidades e transformação social.
MULHERES NA CIÊNCIA – Durante o painel, a reitora chamou atenção para as desigualdades de gênero que persistem na educação e no mundo do trabalho. Ela lembrou que as mulheres representam quase 80% do corpo docente da educação básica, mas correspondem a 47% dos docentes do ensino superior no Brasil e a 30% das pessoas em áreas de ciência, tecnologia, engenharia e matemática (STEM).
Rozana também destacou a presença feminina na liderança universitária. A UnB tem, atualmente, sua segunda reitora mulher. Na eleição para a reitoria em 2024, as três candidaturas eram encabeçadas por mulheres, cenário que, para a dirigente, evidencia a participação feminina nos espaços de decisão e a necessidade de ampliar essa presença em diferentes áreas.
A discussão sobre equidade também incluiu a distribuição do trabalho de cuidado. A reitora citou que mais de 70% do cuidado nas famílias é exercido por mulheres e apontou como essa responsabilidade interfere no tempo disponível para estudar, trabalhar e participar da vida pública. A desigualdade, portanto, não se limita ao acesso à educação: envolve também as condições para permanecer nos estudos e construir uma trajetória profissional.
Na UnB, esse debate passa pelas políticas de acesso e permanência estudantil e pelas estratégias de acolhimento da comunidade acadêmica. A ampliação de oportunidades exige considerar as diferentes condições sociais dos estudantes e os obstáculos que podem comprometer sua formação.
REFERÊNCIAS – A professora Gina Vieira Pontes levou ao debate a experiência de mais de três décadas na educação básica e a trajetória do projeto Mulheres Inspiradoras, criado para alavancar as referências disponíveis às meninas e estimular a reflexão sobre desigualdades de gênero. A iniciativa foi ampliada como política pública e chegou a mais de 50 escolas no Distrito Federal, em Mato Grosso e na província de Niassa, em Moçambique. O trabalho recebeu 26 reconhecimentos, entre eles o Prêmio Ibero-Americano de Educação em Direitos Humanos.
Gina relatou que cresceu em Ceilândia, em uma família de seis filhos, com uma mãe que trabalhava como empregada doméstica e um pai auxiliar de pedreiro. Embora os pais tivessem tido acesso limitado à educação, ambos incentivaram os filhos a estudarem. A mãe foi sua primeira referência de autonomia e incentivo à formação.
“Minha filha, nunca dependa de um homem para nada. Vai estudar”, recordou Gina sobre o conselho materno. A professora também destacou a influência de uma docente que conheceu quando tinha oito anos e que se tornou outra referência em sua trajetória.
O projeto Mulheres Inspiradoras trabalha com biografias de mulheres conhecidas e de mulheres presentes nas famílias e comunidades dos estudantes. A proposta é ampliar o repertório das meninas, mostrar diferentes possibilidades de vida e questionar estereótipos que restringem suas escolhas. “Eu só sonho com aquilo que eu conheço”, afirmou Gina, ao explicar a importância de apresentar referências diversas às novas gerações.
A experiência da professora se conecta ao debate sobre equidade ao mostrar que a educação também depende das referências que circulam na escola e das oportunidades que cada estudante consegue reconhecer como possíveis.
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – Os impactos da inteligência artificial na educação estiveram entre os principais temas da conversa. Rozana Naves observou que os estudantes incorporam novas tecnologias com rapidez, enquanto instituições de ensino precisam discutir como integrá-las aos processos de aprendizagem sem abrir mão da formação crítica, da autoria e da produção de conhecimento.
A reitora citou a criação do bacharelado em Inteligência Artificial na UnB, que se prepara para receber sua segunda turma, além das iniciativas de formação docente e dos debates sobre o uso dessas ferramentas na pós-graduação e na produção científica.
Para ela, a presença da inteligência artificial exige reflexão sobre currículos, práticas de ensino e critérios de autoria. Também coloca em pauta o papel da universidade na aproximação entre conhecimento científico e experiências sociais. Nesse sentido, Rozana defendeu maior diálogo com os territórios e com os saberes de povos indígenas, comunidades quilombolas, população negra e pessoas com 60 anos ou mais.
Gina, por sua vez, ressaltou que a adoção de novas tecnologias precisa preservar o desenvolvimento das capacidades humanas. “Quanto mais tecnológico o mundo for, mais importante será o humano”, afirmou. Para a professora, a escrita continua sendo essencial ao desenvolvimento do pensamento sofisticado, e os estudantes precisam aprender a escrever antes de delegar à inteligência artificial a produção de textos. O uso dessas ferramentas para revisão, por exemplo, pode ser discutido no processo pedagógico.
A educadora também defendeu formação pública estruturada para que professores compreendam a linguagem digital e utilizem a inteligência artificial de maneira crítica. Na avaliação dela, essa preparação não pode depender apenas da iniciativa individual de cada docente. “A tecnologia não vai substituir o professor, mas o professor que não domina a tecnologia será substituído por aquele que domina”, disse.
A discussão trouxe à tona dois desafios que se complementam: preparar estudantes para as transformações tecnológicas e garantir condições para que diferentes grupos sociais tenham acesso à educação e permaneçam nela. Isso envolve formação docente, revisão de práticas pedagógicas, valorização da escrita e do pensamento crítico e atenção às desigualdades que atravessam a vida escolar e universitária.
