Sediados na Universidade de Brasília nesta semana, o XII Seminário Brasileiro (Sapis) e o VII Encontro Latino-americano sobre Áreas Protegidas (Elapis) já ultrapassam mais de oitocentos participantes, trazendo à UnB pesquisadores, representantes de comunidades tradicionais e servidores do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Com programação até sexta-feira (22), que inclui minicursos, oficinas, mesas de conversa, simpósios e conferências, os eventos concomitantes são promovidos este ano pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS), em parceria com o Mestrado em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (Mespt).
Sob o tema Territórios, Áreas Conservadas e Sociobiodiversidade: caminhos para a equidade e a paz, as iniciativas propõem a integração entre saberes tradicionais e científicos na promoção da proteção ambiental e da equidade social. A proposta também dialoga com agenda institucional da UnB em favor da justiça socioambiental.
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Na noite de segunda-feira (18), a Majé Dyyakapiró, da aldeia Cipia (AM), deu início aos eventos, no auditório da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), saudando os ancestrais na língua da etnia Dessana. Em seguida, a mesa de abertura foi composta pelo diretor do CDS, Carlos Hiroo Saito, pelo ministro do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA), João Paulo Capobianco, pelo presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Mauro Pires, por Maria Cecília Wey, do Conselho Mundial da União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN), além de representantes de comunidades tradicionais.
Carlos Saito, também presidente da comissão organizadora, salientou que os eventos reiteram o espírito do CDS de "trabalhar de forma interdisciplinar, conciliando não só as questões mais diretamente ligadas à conservação da biodiversidade e proteção dos recursos naturais, mas também a proteção da cultura e o respeito à herança e aos modos de vida dos povos e comunidades tradicionais".
Ao comentar a sustentabilidade em âmbito social e ambiental como compromisso institucional e ação, o docente expressou sua expectativa de que o seminário e o encontro possam repercutir em cenário internacional a partir da perspectiva latino-americana.
"A gente espera que este evento possa ser, justamente, parte desse processo, colocando diferentes atores sociais em diálogo dentro do mesmo espaço, permitindo que as práticas sejam discutidas, avaliadas, repensadas e projetadas para serem desenvolvidas conjuntamente, com um novo olhar", disse, ao lembrar que o Sapis e o Elapis são etapas preparatórias para o Congresso Mundial de Áreas Protegidas e Conservadas da UICN, que deve ocorrer em setembro de 2027, no Panamá.
“Estamos aqui falando de democracia, participação social, e é muito bom ver tantas pessoas participando. Esse evento é uma construção de anos. Uma experiência inicialmente brasileira, que se expandiu para a América Latina, o que demonstra o avanço de debates importantes. Todo esforço é para que seja entendido o que um país como o Brasil, com sua diversidade ambiental e cultural, tem para mostrar para nós mesmos e para o mundo”, colocou o ministro do MMA.
O presidente do ICMBio, Mauro Pires, reconheceu o esforço dos servidores e colaboradores do instituto na missão de conservação da natureza e frisou a relevância da abordagem desta edição dos eventos. “A temática da inclusão social nas áreas protegidas é extremamente importante para o país. O valor intrínseco da biodiversidade precisa ser considerado, e isso não é contraditório à inclusão social, pelo contrário. O que veremos aqui, durante o evento, é que há muita proteção associada aos povos e comunidades tradicionais”, reforçou.
Ana Paula de Oliveira, membro titular do Conselho Nacional de Povos e Comunidades Tradicionais (CNPCT), falou sobre a importância da preservação dos territórios tradicionais. “É nesses territórios que vivemos. Neles estão nossas histórias, nossa cultura e nossa ancestralidade. Nós, representantes, somos esses territórios vivos!”, exclamou.
CONTRADIÇÕES DA CONSERVAÇÃO – Ainda durante a abertura, o professor do Departamento de Antropologia do Instituto de Ciências Sociais (DAN/ICS) Henyo Trindade Barretto Filho, ministrou a conferência Das cercas‑e‑multas à convivialidade: histórias, argumentos e desafios relativos às áreas protegidas.
O pesquisador fez um retrospecto de estudos sobre áreas protegidas e pontuou a contradição da adoção do instrumento que, ao passo que proponha estratégias e arquiteturas do conhecimento para proteção da biodiversidade, também demonstra "um sintoma da nossa falência civilizatória" no mundo capitalista, pela incapacidade da humanidade em se ver integrada à natureza.
Ao lembrar que, atualmente, 32% do território nacional é formalmente protegido pelo poder público, o que não significa que essa proteção se dê com efetividade, o docente observou: "Se a maior parte desse valor é composto de territórios da sociobiodiversidade dos coletivos humanos e mais que humanos que neles vivem, aos quais, pelo simples fato de aí viverem, têm direito, é porque, de alguma maneira, nosso desenvolvimento histórico da sociedade fez com que aquela inevitabilidade da copresença entre gentes e áreas protegidas se impusesse ao longo do tempo diante do esforço de se insistir na divisão moderna entre natureza e cultura".
Ele destacou, ainda, os desafios para promoção efetiva de políticas na área. "Ainda que nós tenhamos dado passos largos para o estabelecimento de categorias de manejo de áreas protegidas que reconhecem como componente importante da proteção, ou melhor, da promoção da biodiversidade, os modos de vida interespecíficos que vicejam nessas áreas e no desenho de procedimentos minimamente participativos, importa reconhecer que medidas reparatórias são imperativas em várias situações de conflito", argumentou.
A abertura do XII Seminário Brasileiro (Sapis) e VII Encontro Latino-americano sobre Áreas Protegidas (Elapis) está disponível no canal da UnBTV no YouTube:
*com colaboração da Comunicação do ICMBio.
