OPINIÃO

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Frederico Rosa Borges de Holanda é professor emérito e professor titular da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo.

 

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Louise Boeger Viana dos Santos é mestra em Arquitetura e Urbanismo e arquiteta do Centro de Planejamento Oscar Niemeyer (Ceplan/UnB).

Frederico de Holanda e Louise Boeger

 

O Campus Darcy Ribeiro é dos melhores e mais belos do país – a arquitetura emblemática de seus edifícios, a sobressaírem estética e tecnologicamente na arquitetura brasileira ou mesmo na arquitetura moderna em geral; o bucolismo de seus espaços livres, generosamente arborizados; uma localização privilegiada, com vistas para o lago Paranoá...

 

No entanto, ele carrega consigo problemas do DNA da arquitetura moderna, particularmente na (in)definição dos seus espaços públicos e na precária relação dos edifícios com seu entorno e entre si próprios. É baixa a densidade dos espaços construídos. Os edifícios são separados entre si por grandes descontinuidades, nem sempre bem tratadas. Se há generosidade quanto aos espaços abertos, o que à primeira vista é agradável torna-se hostil ao caminhar e, principalmente, à permanência.

 

A arquitetura do campus ilustra um atributo típico dos conjuntos edificados modernos (com profundas raízes históricas): metáforas são perigosas, mas uma analogia possível é a de uma escola de samba em que não há figurantes, somente destaques. Nos conjuntos modernos – nosso campus é um deles – cada novo edifício somado às preexistências é a adição de uma nova estrela que pouco ou nada conversa com a realidade anterior.

 

Há exceções a inspirarem uma unidade na variedade: os primorosos edifícios dos Serviços Gerais, de Oscar Niemeyer, projetados em colaboração com João Filgueiras Lima (Lelé), ou o Instituto Central de Ciências, de mesma autoria. Particularmente o ICC – nosso querido Minhocão– é o esboço de uma trama urbana, com sua “rua” de 720 m de comprimento, para a qual abrem-se portas de salas de aula, auditórios, espaços administrativos, laboratórios – microcosmo da universidade integrada sonhada por Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

 

Carece reverter as tendências recentes, de sentido oposto. A expansão da população universitária implicou a proliferação de novas edificações desarticuladas, sem uma linguagem arquitetônica que assinale 1) o merecido protagonismo das edificações emblemáticas– os “destaques” da Reitoria, Biblioteca Central, Restaurante Universitário – em contraponto a 2) uma trama construída por “figurantes”, uma massa edificada contínua a melhor definir, qualificar, vitalizar os percursos entre os “pontos de exclamação” arquitetônicos – como o casario de nossas cidades coloniais ante seus templos e palácios. Conjuntos edificados sem uma das pontas são conjuntos mancos.

 

A todos nós que desejamos a melhoria do campus, queixar-se do atual estado de coisas sem entender suas raízes históricas e sua lógica social é operar em modo-lamúria, ou em modo-faltou-combinar-com-os-russos, na jocosa expressão de Garrincha, misturando ingenuidade e arrogância: as coisas seriam assim porque 1) “eles não sabem o que fazem” (sabem, sim, e preferem que assim o seja); ou porque 2) “não há planejamento” (há, sim, pois é impossível sujeitos sociais agirem sem processos mentais subjacentes que antecipem – “planejem” – suas ações).

 

Sugerimos passar ao modo-crítico: 1) voltarmos – nós, os sujeitos sociais envolvidos – a sentar à mesa para contrapormos visões do que seja um campus bom, belo e ecológico, sem lamúrias; 2) combinarmos, sim, “com os russos” (Garrincha o sabia), ao rompermos as barreiras que impedem um diálogo mais franco, aberto e democrático entre eventuais adversários civilizados – não inimigos; 3) elevar as ideias com as quais pensamos ao nível das ideias sobre as quais pensamos, passando da instância mais pobre das normas à instância mais nobre das teorias.

 

Ao celebrarmos os 60 anos da Universidade os estudos para a elaboração de um novo Plano Diretor para o Campus constituem uma oportunidade privilegiada para atualizar esse debate.

 

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