ARTES CÊNICAS

Criada no DF como projeto de extensão da UnB, iniciativa internacional estimula o desenvolvimento de olhar crítico do público sobre obras teatrais

Estreia em grande estilo: peça encenada pela renomada companhia de teatro ATA, de Brasília, será o primeiro espetáculo a ser visto pelos alunos da Escola de Espectadores do DF. Foto: Gleyka Vieira/Divulgação 

 

A Escola de Espectadores acaba de abrir suas portas em Brasília. Parte de uma rede de escolas criada em 2001 pelo crítico de arte e professor argentino Jorge Dubatti, com mais de cem unidades espalhadas pela América Latina e Europa, o projeto busca desenvolver o olhar crítico do espectador sobre a cena teatral, aproximar o público dos artistas e pesquisadores em artes cênicas e aprofundar o nível de apreciação dessa arte.

A escola desembarca na capital federal como um projeto de extensão coordenado pelo Departamento de Artes Cênicas (CEN/IdA) da UnB. A atividade é promovida pela Diretoria de Difusão Cultural do Decanato de Extensão (DDC/DEX) da Universidade, com o apoio da rede de Casas Universitárias de Cultura (CUC), e também busca valorizar a produção teatral da região a partir do diálogo com o público.

No Brasil, o projeto já existe em outras cidades, como Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, e Ponta Grossa, Guarapuava, Francisco Beltrão e Cascavel, no Paraná.

A participação envolve a formação em um curso, estruturado em quatro eixos pedagógicos: agenda, empoderamento do espectador, desenvolvimento de perspectiva crítica e diálogo com artistas. Para participar, basta ter mais de 14 anos e “gostar de teatro”, diz a coordenadora do projeto no DF e professora do Departamento de Artes Cênicas da UnB, Júlia Guimarães.

A primeira turma já está formada. “A gente teve uma procura muito significativa”, conta a docente. Para este semestre, foram 109 inscrições para 20 vagas ofertadas, todas elas preenchidas.

Primeira turma da Escola de Espectadores do DF. Foto: Júlia Guimarães/Arquivo pessoal


O CURSO – A primeira aula ocorreu nesta segunda (14), na Casa da Cultura da América Latina (CAL/UnB), Asa Sul, com uma turma composta por estudantes e docentes da Universidade, professores do ensino básico e público externo. Nesse início de curso, o grupo pode conhecer os critérios desenvolvidos por Jorge Dubatti para avaliar obras teatrais. 

São parâmetros que, segundo Júlia Guimarães, podem ajudar o espectador a refinar o olhar para vários aspectos de uma obra, e vão da beleza estética e seu efeito no público até a relação entre o que foi encenado e questões sociais e políticas atuais.

No total, serão sete encontros quinzenais, sempre às segundas-feiras, das 19h às 21h, na CAL. O curso vai até o dia 7 de dezembro. Até lá, os alunos devem assistir a seis peças que estejam em cartaz na cidade e aprofundar o conhecimento sobre as obras por meio de conversas e debates.

“É um projeto vinculado à recepção e mediação teatral, ou seja, à valorização do ato de ser espectador de teatro”, destaca Júlia, que compara a dinâmica com a dos clubes de leitura ou cineclubes. “Nessa edição, têm muitos artistas e pessoas que vão ao teatro toda semana e querem compartilhar uma atividade que elas já fazem com outras pessoas”, comenta a coordenadora.

A coordenadora da Escola de Espectadores do DF Júlia Guimarães (centro) e os estudantes de Artes Cênicas Teodora e Clóvis Jangasto. Foto: Rosa Oliveira/Divulgação


No dia 27, a turma se prepara para assistir, no Teatro dos Ventos, em Águas Claras, a peça 2+2=5, um espetáculo multimídia inspirado na obra 1984, de George Orwell. A peça é encenada pela ATA, Agrupação Teatral Amacaca, criada em Brasília pelo diretor uruguaio e professor emérito da UnB Hugo Rodas, falecido em 2022. Logo após o espetáculo, haverá uma roda de conversa sobre a obra encenada.

É nesse momento que os participantes do curso vão poder colocar em prática o que aprenderam e olhar para questões contemporâneas através do teatro. Será uma oportunidade de conversar com os artistas e demais espectadores e aprofundar ainda mais a percepção e o conhecimento sobre linguagem teatral. A conversa será mediada pelos estudantes de Artes Cênicas da UnB Teodora e Clóvis Jangasto, bolsistas do projeto.

Elementos da cena como atuação, dramaturgia e direção serão observados, mas o aprendizado vai além, segundo a coordenadora do projeto. “A gente vai olhar para elementos de composição, como cenário e figurino, mas o foco do curso é muito mais olhar para o mundo pelas lentes do teatro e compreender melhor o que está ao nosso redor pelo viés das obras escolhidas e vice-versa; é mais global e conjunto”, diz Júlia.

 

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