REFLEXÃO

Segundo bloco do evento trouxe, nesta quarta-feira (30), bate-papo com a professora Rosane Borges e o sociólogo João Carlos Nogueira

Racismo, democracia e futuro foram os eixos centrais do diálogo entre Rosane Borges e João Carlos Nogueira, mediado por Gabriel Dário. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB 


O mês de setembro foi encerrado com chave de ouro na Universidade de Brasília, em um debate sobre o tema Racismo realizado nesta quarta-feira (30), no auditório da Associação dos Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. A palestra foi parte do segundo bloco do Seminário Espírito do Tempo, que segue até sexta-feira (2) discutindo os grandes desafios contemporâneos.

 

O diálogo, desta vez, ficou a cargo da jornalista e professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) Rosane Borges e do sociólogo e pesquisador da Cátedra Antonieta de Barros da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) João Carlos Nogueira. O bate-papo partiu de perguntas enviadas previamente pela comunidade, abordando questões relacionadas às raízes históricas do racismo e aos desafios contemporâneos para o enfrentamento.

 

Na abertura, o moderador Gabriel Dário, representante da Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), destacou a relevância do tema e a dinâmica dos debates. “O racismo é um sistema de discriminação, preconceito e opressão baseado na crença na superioridade de uma raça sobre outras, que se manifesta em práticas sociais, institucionais e culturais”, disse.

 

RACISMO ESTRUTURAL – Iniciando a palestra do dia, João Nogueira aprofundou a discussão ao abordar os mecanismos que contribuíram ao longo da história para a criação e reprodução das desigualdades raciais no Brasil. Segundo o sociólogo, há certo pessimismo ao relacionar as desigualdades históricas às poucas transformações no cenário contemporâneo.

Para João Nogueira, compreender o racismo exige analisar sua dimensão estrutural e histórica, reconhecendo como desigualdades raciais continuam influenciando a organização da sociedade brasileira. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB

 

Nogueira citou como exemplo o contexto internacional marcado por conflitos e a dificuldade de construção de respostas coletivas, como ocorreu na Segunda Guerra Mundial. “Hoje temos aproximadamente 75 conflitos armados, com a destruição de populações em números muito superiores aos que aconteceram naquele período. O grande diferencial é que eles não têm provocado uma mobilização das potências mundiais”, comentou.

 

O palestrante ainda lembrou que “ao pensar o racismo, somos obrigados necessariamente a olhar para o chão que pisamos” e o que queremos construir. Ele, então, aprofundou-se na análise do racismo estrutural, destacando que “seu enfrentamento exige olhar para além das atitudes individuais e considerar instituições, políticas públicas, cultura e relações sociais”.

 

“A pergunta que precisamos buscar responder é: por que a longa duração das desigualdades estruturais e o que é possível para o futuro diante de um quadro tão desafiador?”, questionou. Assim, Nogueira afirmou que “o racismo é uma estrutura de longa duração, com estruturas profundas que se estendem por séculos e não são meros subprodutos de crises temporárias, mas pilares funcionais de organização social, econômica e política”.

 

Para compreender essas dimensões e pensar alternativas para o futuro, ele instigou o público a olhar para o passado, especificamente para a formação do Estado burguês, período de transição entre o fim da escravidão transatlântica no país e o novo Estado brasileiro. E explicou que as decisões daquele período contribuíram para o cenário discriminatório que temos até hoje.

 

“Quem foi excluído do pacto desse novo arranjo social? As condições da população negra após a abolição não promoveram a integração dos trabalhadores negros, e aí está um dos elementos que ajudam a compreender a permanência da discriminação racial”, pontuou. “É esse pacto racial normativo que ajuda a compreender a formação do racismo estrutural e institucional”, analisou.

 

Para o pesquisador, “não precisou ter apartheid ou política formal de segregação racial nos moldes de outros países, [mas] apenas existir estruturas institucionais, econômicas e sociais capazes de reproduzir a exclusão”. Ele destacou ainda que “se existe um pacto que funciona no Brasil, é o pacto das elites" e que "as fórmulas de opressão continuam presentes até hoje”.

 

Concluindo seu raciocínio, o pesquisador ressaltou que “ainda há esperança, exatamente porque a sociedade civil sempre se organizou muito”. E pontuou que não tem como mudar as escolhas feitas no passado, mas que as escolhas feitas hoje determinam o nosso futuro, por isso, “debater o presente é participar da construção do futuro”.

 

BRASIL NÃO BRANCO – Em consonância com Nogueira, Rosane Borges também disse que o racismo é um fenômeno histórico e estruturante das relações sociais no Brasil. Ela aprofundou a discussão sobre a permanência histórica do racismo e sua presença nas diferentes dimensões da vida social, destacando que “precisamos relacionar racismo e temporalidade" e entender que “refletir sobre o presente exige compreender as conexões entre passado, presente e futuro”.

Rosane Borges destacou a necessidade de escutar experiências historicamente marginalizadas e refletir sobre o papel do racismo na produção de desigualdades e na construção do futuro do país. Foto: Raquel Aviani/Secom UnB

 

“O Brasil é um país em que o passado continua produzindo efeitos profundos sobre o presente. Por isso, discutir racismo é também discutir quais heranças permanecem ativas e quais futuros desejamos construir”, salientou a docente.

 

Segundo ela, precisamos ainda enxergar diferentes indicadores e dimensões da realidade brasileira e internacional, pois o racismo se articula a processos econômicos, sociais e políticos, mas também aparecem na forma como determinados grupos são reconhecidos, representados e excluídos da sociedade. “Pensar o racismo exige exatamente isso: reconhecer as sombras do presente para que possamos transformá-las”, disse.

 

Pessimista na análise e otimista na ação, a professora também considerou importante abordar o contexto global citando o capitalismo em crise, marcado pela ampliação das desigualdades, pela precarização da vida e pela construção de novas fronteiras de exclusão. “Nesse cenário, raça, gênero e origem continuam funcionando como critérios de hierarquização social, e a xenofobia contra migrantes e refugiados e o fortalecimento de discursos de exclusão evidenciam que o racismo permanece operando como uma tecnologia de organização das desigualdades”, comentou Rosane.

 

Em sua exposição, ela ainda refletiu sobre a relação entre racismo e o reconhecimento social das violências, argumentando que, a depender da cor, determinadas mortes e sofrimentos não mobilizam a sociedade com a mesma intensidade. A exemplo do caso dos jovens negros assassinados em Costa Barros, no Rio de Janeiro. O carro onde estavam foi atingido por 111 tiros disparados por policiais.

 

“É preciso refletir sobre o significado dessa violência. E por que um episódio dessa magnitude não foi capaz de interromper a rotina nacional e gerar uma mobilização coletiva proporcional à gravidade do ocorrido?”, vociferou. Ela ainda citou exemplos de conflitos internacionais, relacionando racismo, exclusão e desvalorização de vidas humanas.

 

“Pensar o espírito do tempo é pensar quais vidas são reconhecidas e quais continuam sendo tratadas como descartáveis”, observou. Ela ainda defendeu que a universidade continue a contribuir para a construção de novas formas de escuta, memória e reconhecimento das desigualdades. “Precisamos enfrentar essas questões de maneira direta, reconhecer a permanência do racismo, do sexismo e de outras formas de exclusão, mas também valorizar as experiências de resistência, solidariedade e reinvenção que continuam surgindo em meio às adversidades”, comentou.

 

Para ela, apesar desse diagnóstico crítico, há razões para manter a esperança. “As populações historicamente marginalizadas continuam produzindo alternativas, conhecimentos e formas de resistência. Mulheres negras, povos indígenas, moradores das periferias e diversos grupos sociais seguem formulando projetos coletivos de futuro e apresentando respostas para problemas que afetam toda a sociedade”, destacou a palestrante.

 

O QUE VEM POR AÍ – O Seminário Espírito do Tempo – Mudança de Época segue até sexta-feira (2), sempre às 17h, no Auditório da ADUnB. Nesta semana, o evento já promoveu debates sobre Movimentos identitários e transformação social, com Douglas Barros e Bruna Benevides, e Feminismo, com Debora Diniz e Rivane Arantes.

 

A programação continua nesta quinta-feira (1º). Luis Felipe Miguel, professor, cientista político e coordenador do Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades (Demodê/Ipol) da UnB, e Valerio Arcary, professor do Instituto Federal de São Paulo (IFSP), estarão juntos, para falar sobre Democracia Liberal, crise de representação e fenômeno do neofascismo.

 

Na sexta (2), último dia do seminário, o público poderá participar de diálogo sobre Tendências e desafios das universidades frente às transformações econômicas, ambientais, sociais e culturais. Estarão presentes a poeta, filósofa, psicanalista e especialista em políticas públicas Viviane Mosé e o professor de Epidemiologia no Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Naomar Almeida Filho.

 

O evento é realizado em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A iniciativa conta com o apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da ADUnB, do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).

 

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