Após duas semanas de intensos debates sobre temas centrais da contemporaneidade, o Seminário Espírito do Tempo chegou ao fim nesta sexta-feira (2). A última palestra do segundo bloco do evento foi realizada no Auditório da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. O encontro de encerramento refletiu sobre as Tendências e desafios das universidades frente às transformações econômicas, ambientais, sociais, políticas e culturais no planeta, com a participação da filósofa e psicanalista Viviane Mosé e do epidemiologista e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA) Naomar de Almeida Filho.
A reitora da UnB, Rozana Naves, foi a responsável por mediar a discussão sobre o papel das instituições de ensino superior na produção de conhecimento e na construção de respostas para as mudanças que marcam o mundo atual. Ela explicou a relevância do debate e a dinâmica do evento, que contou com o envio prévio de perguntas pela comunidade. Também destacou que as universidades vivem um momento de reinvenção, pressionadas por mudanças globais, e disse que "o equilíbrio entre inovação, autonomia universitária e responsabilidade social será fundamental para o futuro da educação superior”.
O PAPEL DA UNIVERSIDADE – Viviane Mosé iniciou a fala citando suas décadas de experiência na educação básica, para analisar os desafios das universidades. Para ela, “a educação básica já desenvolve, há anos, debates sobre modelos pedagógicos, relações e inclusão que ainda precisam ganhar maior espaço no ensino superior”.
Sobre os desafios da ampliação do acesso ao ensino superior, ela analisou de forma positiva as iniciativas que causaram mudanças visíveis no perfil dos estudantes ao longo das últimas décadas. “A universidade mudou de cor, a universidade mudou de classe social, a universidade passou a ter outra cara”, comentou sobre a nova fotografia da educação superior.
Quanto aos obstáculos que ainda devem ser enfrentados, Viviane afirmou que as universidades precisam rever os modelos institucionais e pedagógicos, sem abrir mão do rigor acadêmico e da produção de excelência. Para ela, é necessário ainda reavaliar as relações entre professores e estudantes, pensar mais na guerra da informação e sobre como lidar com a inteligência artificial.
“Temos uma produção de conteúdo que tem que lidar com um mundo em franco desabamento”, afirmou. Por isso, segundo ela, "é preciso que a universidade seja um centro de qualificação de saber e de produção de credibilidade, sem que a inteligência humana compita com a artificial".
A filósofa alertou ainda sobre a saúde psíquica de estudantes e professores como algo vital para os debates sobre o futuro da educação. Ela reforçou que o avanço das tecnologias ocorre ao mesmo tempo em que há um cenário de sofrimento, perda de perspectivas e fragilização das relações humanas.
Segundo Viviane, esse cenário exige que a universidade reflita sobre seu papel social. “Mais do que competir com sistemas tecnológicos na produção de informação, a instituição deve fortalecer aquilo que é próprio da experiência humana, como as relações, a autonomia e a construção coletiva do conhecimento”, salientou a palestrante.
REINVENTAR A EDUCAÇÃO – Complementando a fala da colega, Naomar de Almeida fez uma análise mais teórica sobre o tema, apresentando dados sobre o papel da universidade e a história da educação superior brasileira, “marcada por tensões entre diferentes projetos”.
Citando modelos que influenciaram a formação do ensino superior brasileiro, da tradição europeia às experiências vanguardistas, ele comentou que parte dos desafios atuais está relacionada à permanência de estruturas concebidas em outros contextos. “Na era digital, precisamos perguntar: o que fazer para reinventar a universidade, desconstruindo modelos que já não respondem adequadamente aos desafios atuais?”, provocou.
Em sua explanação, o docente destacou que “a educação possui uma motivação política fundamental: formar sujeitos capazes de lutar por seus direitos e constituir para a conquista de todos os demais direitos”. Mas avaliou que “a universidade possui um papel histórico ambíguo: ao mesmo tempo em que produz conhecimento e promove inclusão, também pode reproduzir estruturas de poder e exclusão".
Naomar ainda abordou a transformação digital e defendeu que a universidade deve ter uma compreensão mais profunda das tecnologias. “A inteligência artificial ocupa posição central no contexto atual. No entanto, discutimos essas tecnologias sem compreendê-las adequadamente e oscilamos entre o entusiasmo acrítico e o medo irracional”, criticou.
Para o expositor, “a universidade deveria liderar esse debate, mas muitas vezes apenas reproduz agendas formuladas por empresas de tecnologia ou pela mídia, mesmo possuindo todas as condições para produzir esse conhecimento”. Assim, ele defendeu a necessidade de desenvolver uma competência sociotécnica crítica para “compreender as lógicas, os mecanismos e os impactos sociais do uso de inteligência artificial”.
Sobre o futuro da formação universitária, o professor ainda criticou estruturas curriculares rígidas, fragmentadas e excessivamente dependentes de pré-requisitos, além de modelos pedagógicos pouco abertos à experimentação. E defendeu maior autonomia para que as universidades testem novas formas de ensinar, aprender e produzir conhecimento, incorporando tecnologias sem reduzir a dimensão humana, além de apoiar a educação aberta e digital, um novo modelo de educação à distância.
“O desafio não é substituir o humano pela tecnologia, mas utilizar a tecnologia para ampliar possibilidades de participação, colaboração e aprendizagem”, disse. Após citar os sete dilemas cruciais para a universidade, ele ponderou que a universidade precisa “mobilizar pessoas, estimular a participação e criar condições para que a comunidade universitária se reconheça como protagonista das mudanças necessárias”.
SEMINÁRIO – A UnB realizou o Seminário Espírito do Tempo em dois blocos: entre 24 e 28 de agosto, ocorreu o primeiro; já a segunda parte se estendeu de 28 de setembro a 2 de outubro. Ao longo de dez encontros, pesquisadores, professores, jornalistas, lideranças sociais e especialistas promoveram discussões sobre as transformações econômicas, ambientais, tecnológicas, políticas, sociais e culturais que marcam o mundo atual, fortalecendo o papel da universidade como espaço de reflexão crítica, produção de conhecimento e diálogo com a sociedade. As contribuições e reflexões dos dois blocos serão reunidas em um livro.
A primeira rodada de palestras abordou os temas A nova ordem mundial: geopolítica, multipolaridade e Sul Global; Economia mundial, desigualdade e desenvolvimento em tempos de crise; Emergência climática, transição ecológica e disputa por recursos estratégicos; Inteligência artificial, desinformação e poder das plataformas digitais; e A interseção entre política e religião. Já o segundo bloco tratou sobre Movimentos identitários e transformação social; Feminismo; Racismo; e Democracia liberal, crise de representação e o fenômeno do neofascismo.
O evento foi realizado em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF), com apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da Associação de Docentes da UnB (ADUnB), do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).
