A professora Maria da Glória da Veiga Moura, aposentada do Departamento de Artes Cênicas (CEN/IdA) da Universidade de Brasília (UnB), recebeu, na última quinta-feira (30), o título de Professora Emérita da instituição. A cerimônia foi realizada no auditório da Reitoria e reuniu autoridades acadêmicas, familiares, amigos, estudantes e colegas da docente.
A honraria foi aprovada pelo Conselho Universitário (Consuni), em reunião realizada em 8 de maio, em reconhecimento à trajetória da docente na Universidade e à sua atuação e seu pioneirismo em defesa da educação antirracista, das comunidades quilombolas e da ampliação da presença de diferentes saberes e vozes no espaço acadêmico.
Compuseram a mesa de honra a reitora Rozana Naves, o vice-reitor Márcio Muniz e a diretora do Instituto de Artes (IdA), Fátima Aparecida dos Santos. Já a comitiva da homenageada foi integrada pela secretária-executiva do Ministério da Igualdade Racial, Bárbara Oliveira Souza; pelas professoras Joelma Rodrigues Silva (FUP), Cristiane Sobral Correia Jesus (SEEDF) e Verônica Maria da Silva (FE); pelos professores Nelson Fernando Inocêncio da Silva (IdA) e Gilberto Lacerda Santos (FE); por seu marido, Carlos Alves Moura, advogado, militante do movimento negro e primeiro presidente da Fundação Cultural Palmares; e pela filha, Débora Moura.
TRAJETÓRIA – Pedagoga formada pela Universidade Federal Fluminense (UFF), Glória Moura chegou a Brasília em 1978, com uma bolsa de pesquisa, para cursar a pós-graduação na Faculdade de Educação da UnB. Ela foi uma das primeiras professoras negras da Universidade e, na década de 1980, atuou de forma decisiva para a fundação do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros (Neab).
Glória também foi a única representante negra no Centro de Estudos e Acompanhamento da Constituinte da UnB. Ela apresentou propostas que contribuíram para a discussão resultante no artigo do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias (ADCT) que reconheceu o direito à propriedade definitiva das terras ocupadas por comunidades remanescentes de quilombos.
A docente promoveu os primeiros cursos de formação em História e Cultura Afro-Brasileira e criou o primeiro livro didático voltado para crianças quilombolas. Também esteve na liderança intelectual e política que fez da UnB, em 2003, a primeira Universidade do país a implementar o sistema de cotas para estudantes negros.
A emérita também foi docente no Mestrado Profissional em Sustentabilidade junto a Povos e Territórios Tradicionais (MESPT).
PAVIMENTANDO FUTUROS – “Recebo este título de professora com muita honra e emoção. Esta outorga significa muito não só para mim, mas para toda a comunidade com que eu trabalhei e também para as causas coletivas que defendo e defendi ao longo da vida”, disse a homenageada, ao frisar que sua vida foi dedicada à educação e à “luta por nossa sociedade mais justa plural e inclusiva”.
Filha da outorgada, Carla Moura destacou, em seu discurso, a generosidade da mãe e a forma como ela concebe conhecimento a partir da coletividade. “Para ela, conhecimento é coisa que circula, que se compartilha, que se constrói na conversa, na escuta, na experiência do outro”, afirmou.
“Há pessoas que deixam uma bibliografia e há pessoas que deixam uma rede. Glória tece uma rede de pessoas que aprenderam com ela, trabalharam com ela, pesquisaram com ela”, disse Carla sobre a mãe, lendo parte de sua declaração junto com a neta da docente, Serena.
A trajetória da homenageada foi resgatada no discurso da professora Fátima dos Santos, que contou que Glória, na infância, em um colégio de freiras, não podia ser anjo nas coroações de Nossa Senhora por ser negra. “O que o racismo tentou impor como interdição e rejeição, Glória transformou em combustível”, afirmou Fátima, ao refletir que o destino de Glória como educadora seria outro, mais “humano, exigente e sagrado”.
Fátima também destacou o impacto do trabalho da emérita sobre as gerações que vieram depois. “Glória pavimentou a estrada sob a qual hoje caminhamos”, disse. Segundo a professora, a atuação da homenageada contribuiu para transformar a presença de pessoas negras na UnB e ampliar o espaço para diferentes saberes, identidades e perspectivas dentro da Universidade.
Para o vice-reitor Márcio Muniz, a trajetória de Glória mostra que educação, arte, ancestralidade e democracia não estão separadas e devem andar sempre juntas. “Isso tem tudo a ver com a Universidade que queremos construir”, afirmou.
Ao encerrar a cerimônia, a reitora Rozana Naves ressaltou que o título reconhece não apenas a excelência acadêmica de Glória Moura, mas também sua generosidade na construção e no compartilhamento do conhecimento, bem como na luta por uma Universidade plural. E lembrou que este foi "um caminho que a senhora abriu lá atrás, com portas duras", e que, agora, conta com "muito mais pessoas que ingressaram na Universidade a partir da luta que foi empreendida”.
Assista à transmissão da solenidade na íntegra:
