RECONHECIMENTO

Obra de Márcio Cabral retrata campo de sempre-vivas e dialoga com pesquisas botânicas da Universidade

Fotografia produzida na Chapada dos Veadeiros, Pandora vence o Grande Prêmio Global do 17º Greenstorm Photography Festival e ganha projeção internacional. Foto: Márcio Cabral

 

O fotógrafo e geógrafo egresso da Universidade de Brasília (UnB) Márcio Cabral venceu o Grande Prêmio Global do 17º Greenstorm Photography Festival com a obra Pandora, fotografia produzida na Chapada dos Veadeiros, em Goiás. O concurso internacional promovido pela Greenstorm Foundation reconhece as melhores fotografias que traduzam questões ambientais em narrativas humanas e em engajamento em prol da conservação.

 

A premiação foi entregue em 20 de agosto, durante a 17ª Conferência das Partes (COP17) da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), realizada em Ulaanbaatar, na Mongólia. A edição deste ano recebeu 14.513 fotografias de artistas de 177 países, registradas a partir do tema Beautiful Rangelands and Grasslands, cujo enfoque é a valorização e a conservação de campos e paisagens naturais.

 

Na imagem premiada, o arco da Via Láctea aparece sobre um campo de chuveirinhos, plantas conhecidas como sempre-vivas e características da paisagem da Chapada dos Veadeiros. A ideia de produzir a fotografia surgiu em 2014, quando Cabral começou a combinar registros da flora da região com a astrofotografia. A versão premiada, produzida em 2023, é resultado de quase uma década de experimentação em campo.

 

“Escolhi os chuveirinhos pela arquitetura única dessas flores. Quando iluminadas à noite sob as estrelas, elas ganham um brilho que lembra o planeta do filme Avatar, de onde veio o nome da obra”, conta o fotógrafo.

 

Para Cabral, a imagem também busca revelar aspectos do Cerrado que muitas vezes passam despercebidos. “Ninguém protege o que não conhece. Ao revelar uma estética que parece de outro mundo, mas que está viva no coração do Brasil, a fotografia busca romper a invisibilidade do bioma, despertar o encantamento e gerar a consciência urgente de preservá-lo antes que desapareça”, afirma.

Márcio Cabral conquista reconhecimento internacional e recebe US$ 10 mil em premiação por sua fotografia Pandora. Foto: UNCCD Greenstorm

 

Sobre a influência da formação na UnB em seu trabalho, Cabral conta que a Geografia foi determinante para definir a maneira como observa a paisagem. “Em campo, meu olhar não é apenas contemplativo: busco entender por que uma espécie floresce naquele terreno específico e como a topografia conversa com o céu. Essa visão da natureza como um sistema integrado guia minha fotografia até hoje”, destaca.

 

Além da fotografia, Cabral desenvolveu uma versão interativa de Pandora em 360 graus, com trilha sonora original. A versão deu a ele o título principal de Fotógrafo de Realidade Virtual em 360 graus do Ano no The Epson International Pano Awards, competição de fotografia panorâmica realizada na Austrália.

 

OLHAR PARA A BOTÂNICA – Além de angariar reconhecimento internacional, a obra evidencia espécies que também são objeto de estudos desenvolvidos na UnB. Em 2023, pesquisadores da Universidade propuseram uma nova classificação botânica para grupos de sempre-vivas, com base em análises genéticas e características morfológicas das plantas.

 

A professora do Instituto de Ciências Biológicas (IB) Caroline Oliveira Andrino, que integra a equipe responsável pela proposta, explica que reclassificar significa rever a organização das espécies para que elas representem melhor o parentesco evolutivo entre elas. A mudança também facilita a identificação das plantas e os estudos sobre sua diversidade e conservação.

 

Proposto na reclassificação de 2023, o novo gênero recebeu o nome Coracoralina em homenagem à poetisa goiana. “A homenagem aproxima a diversidade botânica da identidade cultural de Goiás”, explica a docente.

Caroline Andrino, professora do IB, integra a equipe de pesquisa botânica que reclassificou as plantas que aparecem na obra Pandora. Foto: Arquivo pessoal

 

Ela lembra que o estado de Goiás, especialmente a Chapada dos Veadeiros, é um importante centro de diversidade dessas plantas e que a poetisa tem forte ligação com o território. “Reconhecemos uma mulher que marcou a cultura brasileira e estabelecemos uma conexão entre ciência, literatura e a região onde essas espécies vivem”, afirma.

 

Para Caroline, um dos méritos de Pandora é colocar os chuveirinhos em primeiro plano. “Plantas que poderiam passar despercebidas tornam-se protagonistas de uma paisagem capaz de despertar admiração e curiosidade”, avalia. Segundo ela, ao ser premiada durante a COP17, “a imagem levou os campos do Cerrado a um espaço de discussão sobre conservação e degradação da terra”.

 

A professora frisa que algumas espécies de sempre-vivas estão associadas a solos úmidos e podem ajudar a identificar áreas de afloramento da água subterrânea. A presença dessas plantas, porém, não basta para determinar a saúde de uma bacia hidrográfica, cuja avaliação também depende de fatores como as condições do solo, da água e o uso do território.

 

Por fim, Caroline destaca que a aproximação entre fotografia e ciência dá visibilidade ao trabalho dos herbários, cujas coleções permitem conhecer a diversidade, documentar onde as espécies ocorrem e orientar a conservação. “Conservar a biodiversidade exige cuidar dos acervos e das instituições científicas que permitem conhecê-la”, conclui.

 

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