Nos últimos dez anos, o avanço do garimpo ilegal na Terra Indígena Yanomami, situada entre os estados de Roraima e do Amazonas, na fronteira com a Venezuela, tem agravado a situação ambiental e sanitária na região. De 2016 a 2024, 6.366 hectares de floresta e cursos d'água foram destruídos e contaminados pela ação dos garimpos no maior território indígena do Brasil, que ultrapassa os 10 mil hectares e abriga mais de 33 mil pessoas, entre povos Yanomami e Ye'kwana.
A situação impacta direta ou indiretamente mais de 15 mil indígenas em 280 comunidades e tem danos comparáveis aos da invasão garimpeira das décadas de 1980 e 1990. Mais de um terço da degradação se deu na comunidade de Waikás, que está às margens do rio Uraricoera (RR). Nas áreas garimpadas em todo o território, 3.506,7 hectares das cavidades escavadas podem necessitar de ações diretas de recuperação ambiental.
O diagnóstico é de pesquisadores do Centro de Desenvolvimento Sustentável (CDS) da Universidade de Brasília e da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que se uniram às populações locais para articular o Plano de Recuperação Ambiental da Terra Indígena Yanomami. Lançado em setembro, o documento, intitulado A floresta brotando de novo, propõe ações para os próximos dez anos com o intuito de enfrentar o quadro de degradação ambiental na região. A perspectiva é a de alcançar 30% das áreas prioritárias do território.
“Vamos tentar [fazer] esse bom trabalho. Nós precisamos; eu, o meu povo, nossa outra geração estamos trabalhando junto com parceiros, mas faltam ainda [ações]. A alma na beira do rio e os igarapés estão destruídos”, alerta o escritor e líder político Yanomami Davi Kopenawa em entrevista à UnBTV. Ele esteve presente durante a ação de lançamento do plano, na UnB.
“Nós firmamos um Termo de Execução Descentralizada (TED) com a Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e mobilizamos pesquisadores não indígenas ao lado de pesquisadores indígenas para desenvolverem conosco, ombro a ombro, esse Plano de Recuperação Ambiental”, explica Mônica Nogueira, uma das pesquisadoras envolvidas e professora do CDS.
OUTRO FUTURO – Com abordagem multidisciplinar, o plano foi elaborado entre 2024 e 2026, com base em estudos socioambientais aprofundados e oficinas realizadas com participação direta de pesquisadores indígenas, comunidades e associações Yanomami e Ye'kwana. A proposta vai ao encontro de perspectivas de fortalecimento cultural e valorização do protagonismo dos povos indígenas em todo o processo.
Durante visitas às áreas afetadas e em encontros com as comunidades, os pesquisadores identificaram e avaliaram os prejuízos causados pelo garimpo na região. Assim, puderam traçar, junto à população afetada, estratégias prioritárias para contornar o quadro, cujos agravos também são sentidos na alimentação, na saúde, na organização social e na manutenção da vida espiritual desses povos.
Como ação estruturante, o documento inclui o processo espiritual de cura da terra-floresta, com apoio institucional e financeiro para execução do trabalho de pajés visando restabelecer a presença e a proteção dos espíritos que habitam a região. Além disso, será realizada a formação de 40 agentes ambientais e territoriais indígenas, que serão remunerados e ficarão responsáveis por planejar, conduzir e monitorar o processo de recuperação ambiental. Um terceiro eixo é a implementação de soluções de recuperação ambiental baseadas em regeneração natural assistida e adaptadas a cada tipo de degradação.
“Esses agentes, junto com as comunidades, é que vão implementar as soluções que foram pensadas no plano. Eles passam por um processo de formação que vai aliar os conhecimentos tradicionais aos conhecimentos não indígenas, trazendo a complementaridade e horizontalidade entre essas ciências”, detalha a coordenadora de Conservação da Biodiversidade e Recuperação Ambiental (Coram) da Funai, Nathali Germano.
Um piloto da iniciativa deve ser realizado no primeiro ano de execução, abrangendo quatro hectares da Terra Indígena Yanomami. Ao longo dos anos, o processo deverá ser estendido, até atingir os 1.057,8 hectares previstos no plano.
Confira matéria da UnBTV sobre o lançamento do plano:
*com informações da UnBTV.
