OPINIÃO

Rafael Amaral Shayani é professor do Departamento de Engenharia Elétrica da Universidade de Brasília. Graduado em Engenharia Elétrica Escola Politécnica da USP, mestre e doutor pela UnB.

Rafael Amaral Shayani

 

A questão energética tem se mostrado um desafio formidável para a humanidade. O consumo energético mundial cresce ano após ano, baseado em combustíveis fósseis (carvão, petróleo e gás natural). As fontes renováveis de energia (solar, eólica, etc.), apesar de baterem recordes de crescimento, ainda correspondem a uma fração muito pequena da matriz energética. Como resultado, o setor energético aumenta suas emissões de gases de efeito estufa, contribuindo cada vez mais para o aquecimento global, na contramão de todos os esforços mundiais em busca do desenvolvimento sustentável.

 

O setor energético é extremamente conservador. Existe, de forma arraigada, a ideia de que segurança energética é o ponto principal a ser buscado, e que apenas as fontes fósseis são capazes de trazer essa segurança, visto que muitas das fontes renováveis são intermitentes e, consequentemente, sem condições de garantir energia firme.

 

O Acordo de Paris, entretanto, apresenta uma forma diferente de fazer planejamento energético. Reconhece a importância de abordagens não mercadológicas integradas, holísticas e equilibradas, e também que o combate às mudanças climáticas deve respeitar, promover e considerar suas respectivas obrigações em matéria de direitos humanos, o direito à saúde, os direitos dos povos indígenas, comunidades locais, migrantes, crianças, pessoas com deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade, o direito ao desenvolvimento, bem como a igualdade de gênero, empoderamento das mulheres e a igualdade intergeracional.

 

Trata-se de uma forma completamente diferente de fazer planejamento energético! Tal mudança de abordagem exige que o tema Energia seja tratado de forma interdisciplinar! Não é mais suficiente que o assunto seja tratado apenas do ponto de vista técnico de engenharia, por exemplo. Questões humanas e sociais devem ser estudadas pelos alunos interessados no tema Energia. As seguintes questões devem ser debatidas nas Universidades, fornecendo importantes elementos para que os alunos, que se tornarão os profissionais do futuro habilitados a tratar desse intricado tema, possam tomar decisões com uma visão mais ampla e completa do assunto: qual a relação entre Energia e Meio Ambiente? Energia e Justiça Social? Energia e Saúde Pública? Energia e Direitos Humanos? Energia e Erradicação da Pobreza? Energia e Cidadania Mundial? Energia e Paz Mundial? O foco dos estudos energéticos deve deixar de ser as tecnologias e passar a ser o ser humano. Os estudantes devem ser capacitados a analisar os impactos técnicos, sociais e ambientais de determinadas tecnologias, com seus respectivos custos. Não mais podemos considerar as implicações relacionadas com a emissão de gases de efeito estufa de termelétricas fósseis como externalidades; elas devem ser consideradas nos custos e influenciar na decisão de adotá-la ou não!

 

Outro ponto importante é fazer os alunos refletirem sobre a questão energética como de implicação mundial. Os alunos devem se inspirar nas palavras de Bahá’u’lláh (1817-1892) de que “a Terra é um só país, e os seres humanos, seus cidadãos” e “seja de âmbito mundial a vossa visão e não limitada a vós mesmos” ao considerar soluções energéticas que promovam justiça social e encaminhem a humanidade em direção à paz mundial. Cabe aos professores mudarem o método de ensino, aprofundando questões humanas e sociais nos cursos de engenharia, para formarmos os novos profissionais do século XXI, com uma visão mais ampla e abrangente do que antes.

 

Palavras-chave

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