OPINIÃO

Aldo Paviani é Professor Emérito da Universidade de Brasília e Pesquisador Associado Departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (NEUR/CEAM/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e Livre Docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiênica em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanizacão em Brasilia, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

Aldo Paviani¹

 

Em todos os quadrantes do planeta, temos desemprego, que afeta mais intensamente os trabalhadores jovens, sobretudo pela falta de “experiência anterior”. Há questões como faixa etária, escolaridade e trabalho anterior que pesam em situações de emprego ou desemprego? Para que se dê resposta a estas questões, pensa-se em sugerir que os governos em todos os patamares da administração, sobretudo a federal, devam introduzir as atividades de planejamento para superar a crise econômica e eliminar os obstáculos à retomada da economia e desenvolvimento social e, ou por essa via, buscar as soluções compatíveis com o volume de problemas existentes no Brasil.

 

Pesquisas recentes, indicam que há incremento do desemprego em todas as capitais estaduais brasileiras e que a situação de desemprego é mais evidente nas metrópoles do país. Para melhor analisar a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED), é interessante voltar no tempo (meados dos anos 1990) e chegar à atualidade (ano 2018). Avalia-se que a questão do emprego e do desemprego é notadamente nos espaços urbanos, sobretudo metropolitanos, pois o meio rural, cada vez mais libera braços, pelo uso maciço de máquinas para todos os fins agrários. A situação foi bem descrita pelo geógrafo Milton Santos, ao teorizar sobre o “período técnico-científico e informacional”, nos anos 1990.

 

Portanto, infere-se que a “incorporação de capital à natureza”, provocou a saída de mão de obra dos campos. Nesse sentido, igualmente os pequenos agricultores migraram para as cidades, muitas vezes sem possuir habilidades para trabalho que não seja o braçal. Essa migração, também analisada por Milton Santos, que apresentou dados concretos, demonstrando a intensidade das transferências populacionais a partir dos anos 1950.

 

Emprego e desemprego em algumas metrópoles – De que forma o desenrolar da economia gerou essa situação de falta de postos de trabalho? Será interessante registrar o “comportamento” do mercado de trabalho nas metrópoles nacionais, desde o início dos anos 1990, quando o Sistema SEADE/DIEESE inicia a Pesquisa de Emprego e Desemprego (PED). Ao longo de um quarto de século, as pesquisas mostraram não apenas o incremento do desemprego, como também o cancelamento de algumas grandes cidades da rotina dessas pesquisas. Ao que se constata a estratégia de poupar recursos com os levantamentos foi equivocada, pois impediu o acompanhamento de importante indicador da evolução da economia no território brasileiro. Na realidade, assim como na Educação, as pesquisas de emprego/desemprego não são despesas, mas investimentos, que impedem o “voo cego” dos gestores públicos.

 

Para avaliar a gradativa redução das metrópoles que realizavam pesquisas de emprego e desemprego, alguns dados mostram a existência de, em 1998, seis metrópoles com dados sobre suas PEDs. Adiante, em 2017, se reduziram a quatro e a três, em 2018.

 

A situação das seis metrópoles que realizavam PEDs, em 1998. Todas possuíam elevadas taxas de desemprego: todas acima dos 15%. Brasília e São Paulo com pouco mais de 18% e Recife e Salvador, com respectivamente, 21,8 e 25,6%. São Paulo, em razão de ser a grande metrópole nacional, tem um número agigantado de desempregados – 1.621.000. Esse volume é superior ao somatório das outras cinco metrópoles – 1.396.000. Aliás, é de supor que se aquecendo a economia de São Paulo, com aumento de pessoas empregadas ou em atividade, as demais metrópoles, de forma sistêmica, terão aumento de pessoas em atividade e redução do desemprego.

 

Para concluir, deve-se avaliar que o aumento constante do desemprego é um desafio para os governantes. O empenho vai na direção de reverter o aumento do número de pessoas que não possuem trabalho remunerado. Permanece no ar a pergunta: como sobrevivem os que não possuem ganho algum? Esse processo afeta sobretudo os jovens de 16 a 24 anos. Pode-se atribuir ao fato de que esse segmento de trabalhadores se encontra na escola e, por isso, é excluído seletivamente das atividades pelo mercado de trabalho. É alegado “lhes falta experiência” ou “não completaram a respectiva escolaridade” para a gigantesca exclusão. Verifica-se que adultos, mesmo com melhor escolaridade, encontram-se igualmente fora do mercado de trabalho. Nesse caso, alguns especialistas atribuem o desemprego à falta de preparo técnico, com ensino profissionalizante. Por outro lado, há desempregados com curso superior, mas sem preparo para o atual período técnico-científico-informacional, exigente em termos do que e como se produz e que possa apresentar criatividade e inovações. Sem estarem antenados com as mudanças requeridas para o desenvolvimento socioespacial, o grande contingente dos atuais desempregados torna-se coadjuvante pouco expressivo no circuito das atividades modernas. Por isso, há quem defenda que as universidades mudem os respectivos paradigmas e orientação sociopedagógica, se reciclem e deixem de oferecer cursos destinados apenas a fornecer diplomas.

 

Por certo, a crise em curso, tende a não permitir a redução do desemprego substancialmente, nos próximos anos. Igualmente, os tópicos apresentados no texto nos mostram uma realidade preocupante. Por um lado, a quebra da continuidade das pesquisas metropolitanas de análise do emprego/desemprego (PEDs), pois cada vez mais, grandes cidades deixam de fazer o levantamento mensal do emprego/desemprego. Por outro, ainda mais preocupante, os números tendem a se manter altos: quase 13 milhões de desempregados no país, situação que permanece mais aguda nas maiores metrópoles. A redução das atividades de serviços e de produção industrial está na base desse quadro. Resulta que olhar o futuro, a médio e a longo prazo, é tarefa de todos, a partir da Academia e dos que constroem cenários para as próximas décadas.

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¹É professor emérito da Universidade de Brasília e pesquisador associado departamento de Geografia e do Núcleo de Estudos Urbanos e Regionais (NEUR/CEAM/UnB). Graduado em Geografia e História pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e livre docente/doutor pela Universidade Federal de Minas Gerais. Tem experiência em Geografia Urbana, atuando principalmente nos temas: urbanização em Brasília, gestão do território, planejamento urbano, exclusão socioespacial e emprego/desemprego em áreas metropolitanas.

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