Os esportes eletrônicos deixaram de ocupar apenas o universo do entretenimento e passaram a integrar debates sobre formação estudantil, inovação, inclusão e políticas públicas. Na Universidade de Brasília (UnB), o tema esteve no centro da conversa Política do Esporte Eletrônico em Instituições Públicas, realizada na quarta-feira (11), no Anfiteatro 10 do Instituto Central de Ciências (ICC), no campus Darcy Ribeiro, Asa Norte. O encontro reuniu estudantes, gestores universitários e representantes do poder público para discutir como os e-sports podem se inserir de forma mais estruturada nas universidades públicas.
A atividade ocorreu em um momento em que os esportes eletrônicos ganham reconhecimento institucional no Brasil e no mundo, impulsionados pelo crescimento do setor, pela ampliação de competições universitárias e pela recente regulamentação dos jogos eletrônicos no país. Na UnB, o debate também dialoga com iniciativas já em andamento, como a retomada dos Jogos Internos da Universidade (JIUnBs), que passaram a incluir modalidades de e-sports, e a atuação do Green Owls, equipe estudantil de esportes eletrônicos da instituição.
A reitora Rozana Naves destacou que o debate sobre esportes eletrônicos precisa ser compreendido dentro de uma visão ampliada da formação universitária. Para ela, arte, cultura e esporte ocupam lugar estratégico na experiência acadêmica e no desenvolvimento estudantil. “Entendemos que esses segmentos da vida universitária são fundamentais para o desenvolvimento de habilidades importantes e para o cumprimento da missão institucional da Universidade de Brasília, que é formar cidadãos antes de formar profissionais”, disse.
Segundo a reitora, discutir uma política para os esportes eletrônicos significa reconhecer uma prática já presente no cotidiano das juventudes e refletir sobre como institucionalizá-la nas universidades públicas. “Quando falamos de uma política de esportes eletrônicos nas instituições de educação superior, estamos falando também de diretrizes éticas, equidade, responsabilidades, acesso e recursos necessários para garantir participação mais ampla da juventude”, observou Rozana Naves.
Ela pontuou ainda que o debate vai além da prática competitiva. “Não é apenas o jogar. Há todo um campo de pesquisa, desenvolvimento tecnológico, criação de jogos e inovação relacionado aos esportes eletrônicos”, completou, citando experiências de egressos da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia (FCTE), no campus Gama, que atuam no setor.
PERMANÊNCIA – Ao longo do encontro, um dos pontos recorrentes foi a relação entre esporte universitário e permanência estudantil. O vice-reitor Márcio Muniz observou que a formação universitária ultrapassa a sala de aula e envolve convivência, experiências coletivas e construção de vínculos. “A permanência estudantil não é apenas questão de acesso. Ela envolve a capacidade de cada estudante se encontrar e se ver como parte da comunidade”, afirmou.
Segundo ele, a retomada dos Jogos Internos da UnB, interrompidos desde 2017, faz parte de um esforço para ampliar espaços de convivência e fortalecer a vida universitária. “É uma alegria ver a Universidade sendo retomada com atividades esportivas e culturais”, celebrou.
O vice-reitor também anunciou medidas concretas voltadas aos esportes eletrônicos. Entre elas está a criação de um espaço físico dedicado ao Green Owls. De acordo com o vice-reitor, a estrutura terá cerca de 90 metros quadrados e contará com computadores de alto desempenho, mobiliário planejado, espaço administrativo e infraestrutura voltada a treinamentos e competições.
“A nossa expectativa é inaugurar esse espaço ainda este ano. Será uma estrutura inicial, mas pensada junto com os estudantes e preparada para apoiar treinamentos, competições e atividades de gestão da equipe”, explicou Márcio Muniz.
A decana de Assuntos Comunitários, Camila Areda, também relacionou o incentivo ao esporte à formação estudantil e à integração da comunidade acadêmica. Para ela, experiências esportivas contribuem para o desenvolvimento de habilidades importantes para a vida universitária e profissional. “Incentivar o esporte universitário é incentivar muito mais do que uma prática esportiva. É fortalecer integração, concentração, perseverança, liderança e sentimento de pertencimento”, ponderou.
Camila lembrou resultados recentes obtidos por equipes esportivas da Universidade, como a medalha de bronze conquistada pela equipe de cheerleading da UnB em competição internacional, e destacou o potencial dos esportes universitários para ampliar experiências acadêmicas e culturais.
RECONHECIMENTO – Para estudantes envolvidos com os esportes eletrônicos, o debate representa também um avanço no reconhecimento institucional da modalidade. Presidente do Green Owls, o estudante de Engenharia de Computação Omarques Júnior afirmou que os e-sports ainda enfrentam resistência em diferentes espaços, o que torna o diálogo promovido pela Universidade ainda mais relevante.
“Como é uma modalidade ainda em processo de aceitação, sempre enfrentamos resistência nos ambientes onde chegamos. Muitas vezes, precisamos mostrar que o esporte eletrônico é importante assim como outros esportes”, afirmou Omarques.
Segundo o estudante, a construção de um espaço voltado à modalidade também abre possibilidades de extensão universitária e de integração com outras iniciativas acadêmicas, como empresas juniores e projetos de tecnologia.
DEBATE NACIONAL – A discussão promovida pela UnB acompanha um movimento mais amplo de reconhecimento institucional dos esportes eletrônicos no Brasil. Em 2024, entrou em vigor o Marco Legal dos Jogos Eletrônicos (Lei nº 14.852), que regulamenta aspectos relacionados ao desenvolvimento, comercialização e uso de jogos eletrônicos no país, além de reconhecer profissões ligadas ao setor.
Mais recentemente, o Ministério do Esporte lançou a cartilha O esporte eletrônico e sua inserção no Brasil, documento voltado à qualificação do debate público e à formulação de políticas para a área. O material aborda temas como inclusão, economia criativa, formação profissional, ética digital e desenvolvimento sustentável do setor.
