EXTENSÃO

Construído a partir de consulta nacional com educadores, material propõe que o combate às fake news se torne uma luta coletiva, por meio de políticas públicas

Solenidade de lançamento do Projeto Promares aconteceu no Auditório da Faculdade de Tecnologia da UnB, em 10 de dezembro, reunindo representantes de diversas universidades brasileiras e da cooperação alemã. Foto: Divulgação/Promares

 

No cenário contemporâneo, a desinformação não é apenas um erro de fato, mas uma estratégia que atinge diretamente a segurança e o direito à educação de grupos minorizados. Para instrumentalizar educadores e estudantes do Ensino Fundamental II e Médio contra esses ataques, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Caleidoscópio, sediado na Universidade de Brasília, lançou o guia Enfrentando a desinformação nas escolas: gênero e raça em foco.

 

A publicação é fruto de uma parceria estratégica com o projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, sediado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em colaboração com a Universidade Federal do Tocantins e o Instituto Federal de Alagoas. Disponível em formato digital, o guia oferece caminhos para que o ambiente escolar não seja receptor de narrativas distorcidas e, sim, um polo de resistência crítica.

 

O lançamento reforça o papel da UnB como articuladora nacional no combate à desinformação, alinhando-se às ações do Comitê de Enfrentamento à Desinformação da Universidade. Para a professora Viviane Resende (IL), supervisora do projeto no âmbito do INCT, a iniciativa é uma decisão política necessária. 

A professora Viviane Resende (IL/UnB), supervisora do projeto no âmbito do INCT Caleidoscópio, que venceu o Prêmio Anísio Teixeira 2025, na categoria Igualdade, diversidade e não discriminação. Foto: Reprodução Instagram

 

“Buscamos debater a integridade da informação e enfrentar conteúdos que desinformam no campo da ciência e da educação. Trata-se de objetivos da maior relevância para superação dos dilemas da atualidade”, afirma.

 

Segundo a docente, o INCT Caleidoscópio adota uma política de comunicação científica feminista e antirracista, que rompe com a ideia de que o cientista é o único detentor do saber.

 

"Nossa comunicação se posiciona na co-construção de saberes, interessada num diálogo profundo entre ciência e a sociedade, capaz de romper a unilateralidade e de comunicar a partir da realidade das pessoas.”

 

BASEADO EM VIVÊNCIAS – Diferente de manuais puramente teóricos, o guia foi construído após uma consulta nacional com docentes da educação básica. A professora Mariana Peixoto (UFU), coordenadora do projeto e atualmente em licença capacitação na UnB, explica que o material aborda o que os professores vivem no cotidiano.

 

“Os docentes apontaram, de forma recorrente, narrativas sobre a chamada ‘ideologia de gênero’, estigmatização de professores e ataques às religiões de matriz africana, além da negação do racismo no Brasil”, relata. 

Coordenadora do projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, a professora Mariana Peixoto (UFU) acompanhou a finalização do guia durante seu período de licença capacitação na UnB. Foto: Arquivo pessoal

 

Ela destaca que o guia busca legitimar o trabalho docente. “Muitos professores são alvo de perseguições ao abordarem fake news e temas sensíveis em sala de aula. O guia funciona como um respaldo externo que reforça, por exemplo, que o combate ao racismo religioso é um princípio fundamental.”

 

Uma das principais inovações do material é a crítica à ideia de que a responsabilidade de combater a desinformação é apenas de quem recebe a mensagem. O guia defende que a simples checagem de fatos (fact-checking) é insuficiente para enfrentar um problema que é estrutural e lucrativo para as plataformas digitais.

 

“A desinformação se consolidou como um modelo de negócios para as grandes plataformas”, pontua Mariana Peixoto. “Por isso, o guia defende uma resposta coletiva, que envolve a luta por regulação das mídias digitais e a cobrança de políticas públicas junto a parlamentares.”

 

A professora Viviane Resende exemplifica: “O enfrentamento precisa ser coletivo. Uma escola pode se organizar para enviar e-mails a parlamentares e participar de consultas públicas, reivindicando avanços na regulação das plataformas.”

 

O guia é gratuito e pode ser acessado pelo site oficial do projeto. Além do material autoexplicativo, o projeto Escola sem Fake News retomará suas ações formativas remotas (palestras e grupos de estudo) em fevereiro de 2026. As informações são divulgadas pelo Instagram @escolasemfakenews.

 

*estagiária de Jornalismo na Secom/UnB.

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