No cenário contemporâneo, a desinformação não é apenas um erro de fato, mas uma estratégia que atinge diretamente a segurança e o direito à educação de grupos minorizados. Para instrumentalizar educadores e estudantes do Ensino Fundamental II e Médio contra esses ataques, o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia (INCT) Caleidoscópio, sediado na Universidade de Brasília, lançou o guia Enfrentando a desinformação nas escolas: gênero e raça em foco.
A publicação é fruto de uma parceria estratégica com o projeto de extensão interinstitucional Escola sem Fake News, sediado na Universidade Federal de Uberlândia (UFU) em colaboração com a Universidade Federal do Tocantins e o Instituto Federal de Alagoas. Disponível em formato digital, o guia oferece caminhos para que o ambiente escolar não seja receptor de narrativas distorcidas e, sim, um polo de resistência crítica.
O lançamento reforça o papel da UnB como articuladora nacional no combate à desinformação, alinhando-se às ações do Comitê de Enfrentamento à Desinformação da Universidade. Para a professora Viviane Resende (IL), supervisora do projeto no âmbito do INCT, a iniciativa é uma decisão política necessária.
“Buscamos debater a integridade da informação e enfrentar conteúdos que desinformam no campo da ciência e da educação. Trata-se de objetivos da maior relevância para superação dos dilemas da atualidade”, afirma.
Segundo a docente, o INCT Caleidoscópio adota uma política de comunicação científica feminista e antirracista, que rompe com a ideia de que o cientista é o único detentor do saber.
"Nossa comunicação se posiciona na co-construção de saberes, interessada num diálogo profundo entre ciência e a sociedade, capaz de romper a unilateralidade e de comunicar a partir da realidade das pessoas.”
BASEADO EM VIVÊNCIAS – Diferente de manuais puramente teóricos, o guia foi construído após uma consulta nacional com docentes da educação básica. A professora Mariana Peixoto (UFU), coordenadora do projeto e atualmente em licença capacitação na UnB, explica que o material aborda o que os professores vivem no cotidiano.
“Os docentes apontaram, de forma recorrente, narrativas sobre a chamada ‘ideologia de gênero’, estigmatização de professores e ataques às religiões de matriz africana, além da negação do racismo no Brasil”, relata.
Ela destaca que o guia busca legitimar o trabalho docente. “Muitos professores são alvo de perseguições ao abordarem fake news e temas sensíveis em sala de aula. O guia funciona como um respaldo externo que reforça, por exemplo, que o combate ao racismo religioso é um princípio fundamental.”
Uma das principais inovações do material é a crítica à ideia de que a responsabilidade de combater a desinformação é apenas de quem recebe a mensagem. O guia defende que a simples checagem de fatos (fact-checking) é insuficiente para enfrentar um problema que é estrutural e lucrativo para as plataformas digitais.
“A desinformação se consolidou como um modelo de negócios para as grandes plataformas”, pontua Mariana Peixoto. “Por isso, o guia defende uma resposta coletiva, que envolve a luta por regulação das mídias digitais e a cobrança de políticas públicas junto a parlamentares.”
A professora Viviane Resende exemplifica: “O enfrentamento precisa ser coletivo. Uma escola pode se organizar para enviar e-mails a parlamentares e participar de consultas públicas, reivindicando avanços na regulação das plataformas.”
O guia é gratuito e pode ser acessado pelo site oficial do projeto. Além do material autoexplicativo, o projeto Escola sem Fake News retomará suas ações formativas remotas (palestras e grupos de estudo) em fevereiro de 2026. As informações são divulgadas pelo Instagram @escolasemfakenews.
*estagiária de Jornalismo na Secom/UnB.
