A Universidade de Brasília desenvolve, desde julho de 2025, o projeto Odontologia na rua – mínima intervenção, máximo respeito, voltado à atenção em saúde bucal de pessoas em situação de rua no Distrito Federal.
A iniciativa articula ensino, serviço e território, com foco em práticas de odontologia de mínima intervenção, promoção da saúde e cuidado contínuo. Participam atualmente 26 estudantes de graduação, oriundos da UnB, Unieuro, UDF e Iesb, além de docentes e profissionais envolvidos na supervisão das atividades.
O projeto nasce de uma articulação interinstitucional robusta, envolvendo a Secretaria de Saúde do Distrito Federal, a Secretaria de Desenvolvimento Social do Distrito Federal e o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, por meio da Promotoria de Justiça de Defesa da Saúde (Pró-SUS). Essa integração viabiliza uma estratégia coordenada de cuidado voltada a uma população historicamente excluída das políticas públicas de saúde.
As ações ocorrem no Centro Pop – unidade de referência para atendimento à população em situação de rua –, onde já foram realizados 528 atendimentos, todos direcionados a pessoas em extrema vulnerabilidade. Mesmo diante de desafios operacionais, como a pausa no período de fim de ano, o projeto manteve a continuidade assistencial, inclusive durante as férias acadêmicas, com a atuação de estudantes selecionados.
A organização do cuidado segue rigorosamente a lógica do Sistema Único de Saúde (SUS): casos de atenção básica são encaminhados às Unidades Básicas de Saúde (UBS), enquanto situações de maior complexidade são referenciadas para a clínica odontológica da UnB e para o Hospital Universitário de Brasília (HUB), especialmente em demandas cirúrgicas e suspeitas de câncer bucal. O fluxo garante não apenas atendimento imediato, mas inserção efetiva na rede pública de saúde.
Academicamente, o projeto se materializou na criação do componente multidisciplinar Saúde, vulnerabilidade e território – odontologia na rua, ofertado pelo Departamento de Odontologia (ODT) para a graduação e pós-graduação.
A experiência consolidada no Centro Pop já configura um modelo estruturado de atenção em saúde bucal orientado pelo território, com potencial real de transformação sistêmica. Esse reconhecimento se materializou com a aprovação do projeto em edital do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), o que permitiu a ampliação das ações para a Cidade Estrutural, região administrativa do DF.
A nova fase incorpora pesquisa, inovação e extensão, ao fortalecer a produção de conhecimento e ampliar o alcance da iniciativa, com vistas à consolidação de um modelo replicável em outras regiões do país. O foco é abranger, além da assistência, a formação de lideranças populares de saúde, em trabalho conjunto com três movimentos nacionais: Movimento de Lutas dos Bairros (MLB), Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) e Movimento Nacional da População de Rua (MNPR).
“Não se trata apenas de ampliar acesso, mas de reorganizar o cuidado a partir da realidade das pessoas em situação de rua. Se a universalização não começar pelos últimos, ela não é universalização”, afirma Gilberto Pucca Júnior, professor do Departamento de Odontologia e idealizador do projeto.
Ao integrar formação acadêmica, produção científica e atuação direta no território, o projeto reafirma o papel da universidade pública como agente de transformação social e fortalece os princípios do SUS, demonstrando que inovação em saúde também passa pela inclusão de quem historicamente ficou à margem.
