O primeiro bloco do Seminário Espírito do Tempo chegou ao fim, nesta sexta-feira (28), com o debate A Interseção entre Politica e Religião. Durante cerca de duas horas e meia, no auditório da Associação de Docentes da Universidade de Brasília (ADUnB), os palestrantes Christina Vital da Cunha e Jung Mo Sung trouxeram perspectivas sobre as influências do pensamento religioso nas decisões políticas.
Assim como nos outros quatro debates realizados ao longo da semana, as discussões tiveram como ponto de partida as perguntas enviadas previamente por estudantes, professores, técnicos e colaboradores da UnB. “O seminário foi concebido para promover uma interação efetiva entre as pessoas convidadas e a comunidade universitária”, afirmou a reitora Rozana Naves, ao iniciar a mediação do diálogo.
“Compreender essa relação [tema do debate] requer analisar não apenas as doutrinas religiosas, mas também os interesses políticos, as dinâmicas de poder e as transformações sociais que moldam a participação religiosa na esfera pública”, disse ela na fala de abertura.
A professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Christina Vital da Cunha foi a primeira a discorrer. O ponto de partida para a explanação foi a pesquisa Religião, Política e Valores dos Brasileiros: entre extremismos e mediações, cocoordenada por ela. As estatísticas, obtidas em parceria com o Datafolha, mostram a relação entre eleitorado e crença religiosa de seus candidatos.
Entre os resultados observados, a pesquisadora apontou incoerências entre os trabalhos de segmentos parlamentares e as defesas de seus eleitores religiosos em pautas como a de segurança. Outros dados mostram a aprovação dos eleitores religiosos, próxima a da média geral, a programas sociais. Percepções sobre criminalidade, liberdade de expressão, desigualdade social e racial e preferências por espectros políticos também foram abordadas na apresentação.
“A gente pode pensar no conservadorismo ético, mas [também] no progressismo social na medida em que ele defende políticas públicas”, disse a cientista acerca das prevalências constatadas.
RAÍZES HISTÓRICAS – Autor de O Sagrado x O Santo – a rebelião de Eva e o pecado original do capitalismo, o teólogo e doutor em Ciências da Religião Jung Mo Sung trouxe um apanhado das relações históricas entre religião e política. Ele dividiu a apresentação em três momentos: o repensar o mundo moderno a partir do tema, o projeto de civilização neoliberal-autoritária e religiões anti-igualitárias, e desafios e possibilidades.
O palestrante falou sobre momentos civilizatórios em que se buscou restringir a religião à esfera privada e citou autores como Celso Furtado e Joan Robinson na análise da onipresença de mitos nas relações sociais, científicas e políticas. Ao mencionar Max Weber, apontou tópico em que apresenta a impossibilidade de sociedades sem religião.
Expoente da Teologia da Libertação, Jung Mo Sung indicou como um dos desafios para as práticas político-religiosas a construção de “alianças com setores religiosos com sensibilidade social”.
NOVO BLOCO – O Seminário Espírito do Tempo será retomado em 28 de setembro e adentrará o mês de outubro para mais cinco encontros. No mesmo formato, os próximos debates trazem os temas Movimentos Identitários e Transformação Social; Feminismo; Racismo; Democracia Liberal, Crise de Representação e o Fenômeno do Neofascismo; e Tendências e Desafios das Universidades Frente às Transformações Econômicas, Ambientais, Sociais, Políticas e Culturais no Planeta.
O bloco finalizado em agosto discutiu A Nova Ordem Mundial: Geopolítica, Multipolaridade e Sul Global; Economia Mundial, Desigualdade e Desenvolvimento em Tempos de Crise; Emergência Climática, Transição Ecológica e Disputa por Recursos Estratégicos; e Inteligência Artificial, Desinformação e Poder das Plataformas Digitais.
