DIÁLOGO

Em seu quarto dia, evento recebeu a jornalista Renata Mielli e o professor e pesquisador em ciência da computação Virgílio Almeida

Da esquerda para a direita, Virgílio Almeida, vice-reitor Márcio Muniz, Renata Mielli e a reitora Rozana Naves. Foto Luis Gustavo Prado/Secom UnB


O Seminário Espírito do Tempo – Mudança de Época recebeu nesta quinta-feira (27) a jornalista Renata Mielli e o professor emérito da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador em ciência da computação, Virgílio Almeida para um diálogo com o público. A dupla debateu o tema Inteligência Artificial, Desinformação e Poder das Plataformas Digitais, no Auditório da Associação dos Docentes da UnB (ADUnB), campus Darcy Ribeiro, Asa Norte.

 

Os palestrantes abordaram o progresso rápido da tecnologia, as atualizações constantes que ultrapassam a capacidade humana, além das possibilidades, das incertezas e dos riscos deste avanço. 

 

“A inteligência artificial (IA) está se tornando uma das tecnologias mais transformadoras do nosso tempo, com aplicações em praticamente todos os setores da economia e da sociedade. Mas também levanta questões importantes sobre ética, privacidade e segurança”, destacou o vice-reitor da UnB, professor Márcio Muniz, mediador da conversa.

 

INCERTEZA – Sob a mesma perspectiva, Virgílio Almeida falou sobre os benefícios e desafios das aplicações da IA. “Há todo um potencial transformador e, do outro lado, muitos riscos e perguntas. Por isso, o futuro não vai depender só da tecnologia, mas também da governança, regulação e responsabilização”, disse.

Virgílio Almeida falou sobre as incertezas no uso da IA e a importância da regulação. Foto Luis Gustavo Prado/Secom UnB


Para o pesquisador, a inteligência artificial tem potencial em diversas áreas, como saúde, educação e na produção de conhecimento, mas amplia os desafios ligados à desigualdade, à desinformação, à concentração de poder e às interações sociais. “Temos uma dinâmica de incerteza, onde não sabemos o que vai acontecer com o uso dos chatbots, por exemplo”, comentou.

 

Como ocorreu com as redes sociais, cujos impactos políticos e sociais não foram previstos quando surgiram, Virgílio explicou que a IA pode produzir efeitos imprevisíveis, especialmente pela capacidade de influenciar opiniões e comportamentos. Além disso, alertou para a falta de regras claras de uso e que a inteligência artificial tem se tornado instrumento de poder econômico, político e militar.

 

Ele ainda salientou que a concentração de dados e de poder nas grandes empresas de tecnologia representa riscos para a democracia e para a autonomia dos países, que ainda não têm legislações claras e específicas sobre o tema. “É um desafio garantir que a tecnologia seja acompanhada por mecanismos capazes de proteger o interesse coletivo”, destacou o professor.

 

“Qual futuro de IA queremos para o Brasil e o que podemos fazer?”, provocou o cientista, afirmando que o país precisa discutir o que deseja construir diante dessas transformações. Ele ainda apresentou possibilidades e afirmou que “a universidade tem a obrigação moral de promover esse debate e determinar direções, dando suporte ao interesse público, fomentando interações e a interdisciplinaridade, moldando assim um futuro mais responsável para o uso da IA”.

 

Virgílio Almeida defendeu o fortalecimento da pesquisa, da governança e da cooperação entre universidades, governos e sociedade na construção de políticas para a inteligência artificial. “A IA é uma tecnologia estratégica, não é apenas uma ferramenta”, disse. Segundo ele, por isso, o país precisa agir desde já diante da velocidade das transformações, inclusive na produção do conhecimento, já que “ela não irá simplesmente acelerar a ciência, mas reorganizar a forma como a ciência é produzida”.

 

DESINFORMAÇÃO – A jornalista e coordenadora do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), Renata Mielli, concentrou seu discurso nos impactos da inteligência artificial sobre a desinformação e a circulação de notícias falsas. Para ela, é preciso olhar “não apenas para quem produziu o falso, mas quem decidiu que aquele conteúdo chegaria até a gente”.

Renata Mielli abordou os impactos da inteligência artificial sobre a desinformação e a circulação de notícias falsas. Foto Luis Gustavo Prado/Secom UnB

 

Renata destacou que a IA amplia a produção e a circulação de conteúdos falsos, tornando a desinformação mais rápida, personalizada e convincente. Entre os principais riscos, citou as deepfakes, conteúdos alterados por IA com uso de rostos ou vozes realistas, por exemplo, que podem comprometer a confiança nas evidências e alterar a forma como a sociedade identifica o que é verdadeiro ou falso.

 

“Ninguém contestava o vídeo de alguém falando algo. Hoje o ditado 'só acredito vendo' não existe mais, a veracidade é questionável, qualquer coisa pode ser produzida pela IA generativa e a gente achar que é verdade. Isso corrói completamente a confiança”, observou.

 

Para ela, a falta de credibilidade é ampliada ainda pelo cenário massivo de disseminação de conteúdos, que amplia o ciclo de desinformação de forma acelerada. Assim, na avaliação da jornalista, compreender a desinformação exige analisar esse ecossistema, o poder das plataformas de influenciar a circulação de informações e a formação de crenças, e o potencial de direcionamento desses conteúdos às pessoas mais suscetíveis tanto a recebê-los quanto a interagir com eles.

 

A coordenadora do CGI.br explicou ainda sobre as armadilhas dos algoritmos, que utilizam dados sobre o comportamento dos usuários para ampliar a circulação de conteúdos com forte apelo emocional. “Medo, ódio, indignação, choque deixam de ser experiências humanas e passam a funcionar como fatores de engajamento”, disse.

 

Esse mecanismo contribui para a polarização e para a fragmentação da esfera pública. Por isso, ela argumentou ser essencial questionar não apenas se uma informação é verdadeira ou falsa, como também o por quê de estar vendo esse conteúdo. “Temos que ir mais embaixo, porque o problema é sistêmico. As políticas de integridade da informação precisam olhar para a urgência de pesquisas e regulações pautadas na transparência desses algoritmos”, defendeu.

 

A jornalista ainda pontuou que é preciso "refundar o jornalismo para o século XXI, para que ele enfrente a necessidade de se colocar de forma altiva e determinante para recuperar o mínimo de confiança na espera pública”. Também observou a necessidade de transparência, regulação e mecanismos independentes de auditoria para garantir a integridade do ambiente informacional.

 

Renata Mielli também defendeu a atuação das universidades como espaços de experimentação, questionamento e de produção de conhecimento. “A gente precisa exercitar cada vez mais essas capacidades para fazer pesquisa sobre inteligência artificial em caráter interdisciplinar, para exatamente tirar da zona de conforto determinadas áreas”, discorreu.

 

Segundo a palestrante, as perguntas e respostas do passado não servem para o que a gente vai viver daqui para frente. Por isso, precisamos fazer novas perguntas e encontrar novas respostas, o que ela considera ser papel das universidades. “Essa não é mais uma discussão apenas sobre tecnologia, ela é uma discussão sobre comunicação, sobre poder, sobre conhecimento e, essencialmente, sobre o futuro da nossa democracia”, ponderou.

 

SAIBA MAIS – O seminário é realizado pela UnB em parceria com a Comissão Brasileira Justiça e Paz (CBJP) e a Escola Nacional Florestan Fernandes (ENFF). A programação conta com apoio da Fundação de Empreendimentos Científicos e Tecnológicos (Finatec), da Associação de Docentes da UnB (ADUnB), do Sindicato dos Servidores Técnico-Administrativos da Fundação Universidade de Brasília (Sintfub) e do Diretório Central dos Estudantes Honestino Guimarães (DCE).

 

O primeiro bloco do Seminário Espírito do Tempo termina nesta sexta-feira (28), com o tema A intersecção entre política e religião, que será discutido por Jung Mo Sung e Christina Vital da Cunha, no Auditório da ADUnB.

 

O segundo bloco do seminário está programado para ocorrer de 28 de setembro a 2 de outubro. De acordo com a organização, as reflexões produzidas ao longo dos dois blocos serão reunidas em um livro após o encerramento da programação.

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