Primeiro aluno surdocego a ingressar na Universidade de Brasília (UnB), Iury Moraes alcançou mais um marco em sua trajetória acadêmica. Em 21 de setembro, ele defendeu o mestrado em Educação – Modalidade Profissional, tornando-se também pioneiro nessa etapa da formação na instituição.
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Iury ingressou na UnB no curso de Língua de Sinais Brasileira – Português, em 2016. Em 2020, concluiu a graduação, com colação de grau realizada por videoconferência, devido à pandemia de covid-19, e em Língua Brasileira de Sinais (Libras). Dois anos depois, tornou-se estudante de mestrado. Com a defesa da dissertação, ele concluiu mais uma etapa de sua formação profissional, marcada pela busca por acessibilidade e estratégias para superar os desafios da inclusão.
“Eu consegui vencer toda a etapa do ensino fundamental, ensino médio e, nesse processo de acessibilidade, nesse desenvolvimento todo, eu fiz essa organização, fiz escolhas: a de me qualificar enquanto professor”, afirma Iury, em entrevista concedida à UnBTV. No diálogo, conta com apoio de sua mãe, Elem Regina, para tradução com uso da Libras tátil, comunicação realizada por meio do toque.
Intitulada O saber na experiência do trabalho com pessoa surdocega: uma escrita autobiográfica, a pesquisa de Iury reconhece o surdocego como sujeito da ciência e parte da própria experiência do estudante para evidenciar percursos, práticas e conhecimentos construídos na atuação junto a este público. Trata-se de estudo que amplia o debate acadêmico sobre acessibilidade e ampliação da presença de pessoas com deficiência na produção de saberes.
CONHECIMENTO ACESSÍVEL – A defesa ocorreu na sala Papirus da Faculdade de Educação (FE), lotada de colegas, professores e familiares que acompanhavam o momento. Diferentemente do clima de apreensão que costuma anteceder uma banca, a ocasião foi marcada por abraços, sorrisos e reencontros com pessoas que fizeram parte do percurso acadêmico de Iury.
O evento exigiu uma logística planejada para garantir acessibilidade a todos os participantes. Ao todo, oito profissionais da Diretoria de Acessibilidade (Daces/DAC/UnB) e que acompanharam Iury ao longo dos anos atuaram para atender às necessidades dos presentes, considerando a comunicação com pessoas surdocegas com campo visual reduzido e com o público surdo.
Durante a apresentação, Iury permaneceu em pé para sinalizar, enquanto sua mãe traduzia os sinais ao português oral e sua orientadora, a professora da FE Liège Gemelli Kuchenbecker, o informava sobre a ordem dos slides. Já durante a fala dos avaliadores, Iury esteve acompanhado por intérpretes de libras tátil, que se revezavam para transmitir as informações a ele.
Um dos avaliadores da banca, o professor José Carlos de Oliveira, da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), também surdocego, fez questão de dirigir suas perguntas diretamente a Yuri, utilizando libras tátil.
SUPERAÇÃO – Iury nasceu com catarata e surdez profunda congênita. Desde a infância, enfrentou barreiras relacionadas à comunicação e à acessibilidade. Durante a graduação na UnB, perdeu a visão residual e passou a utilizar Libras tátil.
A mãe do então mestrando traduziu toda a dissertação para o português escrito e acompanhou de perto a trajetória acadêmica do filho. “A gente aprendeu muito com ele. Ele aprendeu muito com tudo isso, aprendeu muito com a UnB. A UnB aprendeu com o Iury”, diz Elem.
A conquista, no entanto, não encerrou os planos de Iury no campo da formação profissional. “Eu quero fazer o doutorado. Eu faço a leitura, eu sonho. Essa equidade eu gostaria que todos tivessem”, afirma o egresso.
Confira matéria da UnBTV sobre a defesa de Iury Moraes:
