“Regret nothing”, que em tradução livre para o português significa “não se arrependa de nada”, é a frase estampada na camiseta que um dos envolvidos no estupro coletivo de uma adolescente de 17 anos, no Rio de Janeiro, usava ao se entregar à polícia. O crime, que mobilizou a atenção pública no último mês, confirma a urgência de iniciativas como o debate Feminicídio nas mídias/redes sociais e enfrentamento à desigualdade de gênero, promovido na última sexta-feira (20) pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher (Nepem), do Centro de Estudos Avançados Multidisciplinares (Ceam) da Universidade de Brasília.
“A frase estampada na camiseta faz parte desse movimento red pill, cujo discurso de ressentimento e misoginia é propagado por influencers e coaches em ambientes de jogos e mídias sociais e que envolve não apenas homens, como também meninos jovens e crianças, fomentando essa rede de um discurso que resulta em violência, abusos e feminicídio”, destacou a professora da Faculdade de Comunicação (FAC), e vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Direitos Humanos e Cidadania (PPGDH), Kátia Belisário.
Pesquisadora em gênero e mídia, a docente compôs uma das mesas que debateu sobre como os meios de comunicação moldam e reproduzem normas de gênero, estereótipos e estruturas de poder, e mostrou ao público exemplos de conteúdos midiáticos que perpetuam a violência contra as mulheres.
“É um discurso que reproduz preconceitos de gênero, raça e classe. Trata o crime como passional, romantizando ou justificando a violência masculina. Atua construindo estereótipos, e culpabiliza a vítima ao invés do agressor”, apontou Kátia Belisário.
Fundadora do Nepem e professora emérita do Departamento de Sociologia, Lia Zanotta, reconhecida pelos estudos sobre relações de gênero, resgatou a contribuição histórica da Universidade em prol dos “direitos humanos, direitos das mulheres e da diversidade sexual e de gênero” e, agora, para o enfrentamento à misoginia nas mídias sociais.
No debate, Lia explanou sobre contribuições teóricas e possíveis desdobramentos, como para a prática jurídica, trazidos pela obra póstuma Crimes de feminicídio no enquadramento midiático: o que não é nominado não existe (Brasil, 2015 – 2018), que sistematiza os quatro últimos anos de pesquisa da professora emérita Lourdes Bandeira, falecida em 2021. O livro foi lançado pela Editora UnB (EDU).
“Hoje fazemos uma ‘femenagem’ [neologismo para homenagem] a Lourdes Bandeira, que, tão logo chegou na UnB, veio para o Nepem e contribuiu com pesquisas sobre desigualdade de gênero e violências contra mulheres, e, de forma brilhante e rigorosa, deixa a contribuição que encontramos nessa obra, cuja publicação nasce do esforço conjunto entre o Nepem e a Editora UnB”, proferiu Lia Zanotta.
A diretora da EDU, Marina Dourado, contou que o livro foi produzido em conjunto com Lourdes Bandeira “até a partida dela”. Ela comentou ainda que a “união entre a Editora, o Nepem e vários interessados na luta pelos direitos humanos” consolidou a obra, cujo lançamento integrou a programação da campanha da UnB #8M 2026: Nenhuma a menos: mais vozes, mais acolhimento.
“Contem conosco para ter mais diálogo e mais publicações na defesa da equidade de gênero. Esforço que faz parte também de aprendermos, praticarmos e vivermos o exercício democrático diariamente”, garantiu Marina Dourado, em menção à campanha institucional Democracia todos os dias: aprender, praticar e viver, que orienta as ações da Universidade ao longo de 2026.
As mesas de debate tiveram ainda contribuição das docentes da Universidade Ela Wiecko, Tânia Mara de Almeida e Hayeska Barroso, da advogada Laina Crisóstomo e da pesquisadora da UnB e professora da Universidade Regional do Cariri Geórgia Oliveira, com mediação de Luna Leite e Esther de Souza.
