“Foi muito significativo contribuir nesse processo, uma vez que, nacionalmente, nós indígenas temos superado o lugar colonialmente destinado a nós como objeto de pesquisa para sermos sujeitas na pesquisa. Por isso, avalio que minha participação se deu na possibilidade de honrar a voz da mulher indígena nessa construção.” O testemunho da mulher indígena Amanda Pankararu, assistente social que atua no atendimento a mulheres em situação de violência doméstica, demonstra que os esforços da Universidade de Brasília estão conectados ao lema Mais vozes, mais acolhimento antes mesmo da campanha #8M 2026 ser lançada.
Amanda integra o Laboratório Mulheres, Arquitetura e Território (LabMulheres) da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da UnB e sua fala faz referência ao processo de letramento crítico racial-cultural iniciado pela liderança do projeto a fim de melhor materializar a concepção da Casa da Mulher Indígena (Cami) em território nacional. A UnB está envolvida no projeto desde 2024, quando foi assinado um Termo de Execução Descentralizada com o Ministério das Mulheres para fortalecer e encaminhar a iniciativa.
Novo espaço de acolhimento e apoio à população indígena, a Casa da Mulher Indígena passa a integrar a rede de atendimento ao público feminino em situação de violência. As Cami devem contar com rede de profissionais indígenas ou indigenistas especializados, incluindo advogados, antropólogos, intérpretes e psicólogos. As edificações precisam oferecer espaços de acolhida para crianças, salas de formação, áreas externas para hortas medicinais e terreiros para manifestações dos costumes e das tradições das atendidas.
A previsão é de que sejam implantadas seis Cami, uma em cada bioma brasileiro (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal), além do território Yanomami, priorizando os territórios indígenas com maior índice de violência contra mulheres.
“A iniciativa é pioneira no país e visa materializar um espaço de acolhimento, proteção e cuidado para mulheres indígenas em situação de violência, respeitando profundamente suas culturas, territórios, línguas e saberes tradicionais”, detalha a professora Maribel Aliaga Fuentes (FAU), fundadora do LabMulheres, à frente da pesquisa responsável pelas diretrizes técnicas e conceituais para a Cami. “Acreditamos que a Cami será uma resposta concreta à violência de gênero e um marco fundamental no processo histórico de reconhecimento dos direitos dessas mulheres”, vislumbra.
PESQUISA HUMANIZADA – A concepção do que virá a ser a Casa da Mulher Indígena exigiu uma inovação metodológica e teórica que buscou compreender as especificidades e necessidades reais dessas populações. “Desde o início entendemos a complexidade temática, não relacionada ao projeto de uma casa, mas ao entendimento das especificidades territoriais, culturais e linguísticas, bem como a delicada questão das disputas nos territórios”, contextualiza Fuentes.
Para abraçar o desafio, o primeiro passo foi promover um letramento crítico racial-cultural de toda a equipe de trabalho. “Pesquisas específicas sobre mulheres indígenas e dados sobre a violência por elas sofrida eram escassos, assim como um entendimento maior das suas necessidades”, conta a professora.
A lacuna foi preenchida com o processo de pesquisa que envolveu a realização de oficinas para escuta e participação ativa de mulheres indígenas, lideranças femininas e representantes de órgãos públicos envolvidos na temática, de modo a identificar necessidades e prioridades para concepção das Cami.
“A pesquisa se alicerçou em uma perspectiva reparatória, interseccional e territorializada, enfrentando não apenas as violências de gênero, mas também o racismo institucional, as barreiras linguísticas e os múltiplos silenciamentos herdados do colonialismo e do racismo”, detalha a coordenadora do LabMulheres.
Maribel explica que a metodologia garantiu o protagonismo das mulheres indígenas “desde a concepção do programa de necessidades até a definição dos fluxos de atendimento” a serem implementados nas Cami.
Doutoranda na Pós-Graduação da FAU, Érika Menezes destaca a importância das oficinas. “Esses espaços de escuta, diálogo e construção coletiva possibilitaram um contato direto e sensível com as narrativas, cosmologias e práticas de cuidado das mulheres indígenas, promovendo um deslocamento crítico em relação às referências eurocentradas que historicamente orientam a formação acadêmica e a prática arquitetônica.”
O conhecimento foi sistematizado em artigos e relatórios, e consolidado no livro Mulheres indígenas e a diversidade cultural brasileira: história, violência e resiliência, disponível gratuitamente para download. “O livro constrói um panorama articulado e rigoroso das trajetórias históricas, culturais e sociopolíticas das mulheres indígenas brasileiras, evidenciando seu papel central na manutenção dos saberes ancestrais, na reprodução da vida comunitária e na defesa dos territórios tradicionais”, detalha Maribel.
Ela acrescenta que “a obra enfrenta de forma direta as marcas da colonialidade, do patriarcado e do racismo estrutural, analisando como esses sistemas de opressão incidem de maneira específica e cumulativa sobre os corpos, os modos de vida e as vozes das mulheres indígenas”. O lançamento oficial acontece em 12 de março.
Além de mulheres indígenas, a pesquisa também ouviu representantes do Ministério das Mulheres, da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) e Ministério dos Povos Indígenas – atentando à prescrição da Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) sobre Povos Indígenas e Tribais, que garante o direito de consulta prévia, livre e informada sobre projetos que afetem comunidades tradicionais. A pesquisa teve, ainda, a contribuição do Núcleo Takinahaky de Formação de Professores Indígenas da Universidade Federal de Goiás, liderado pela docente Joana Aparecida Fernandes Silva.
CONCURSO DE IDEIAS – Toda essa trajetória construída permitiu que o projeto chegasse com firmeza de método e conteúdo ao momento atual, de convite a arquitetos e equipes de todo o Brasil para a proposição de soluções criativas e culturalmente adequadas para a concepção da Casa da Mulher Indígena (Cami).
O Concurso Público Nacional de Ideias de Arquitetura para a Casa da Mulher Indígena busca selecionar as melhores propostas de estudo preliminar que atendam às diretrizes do edital, com foco na criação de espaços adaptáveis aos sete territórios prioritários. Interessados têm até 19 de março para submeter propostas.
“A iniciativa é pioneira no país e visa materializar um espaço de acolhimento, proteção e cuidado para mulheres indígenas em situação de violência, respeitando profundamente suas culturas, territórios, línguas e saberes tradicionais”, detalha Maribel.
“O desafio arquitetônico envolve a concepção de um modelo com alta capacidade de adaptabilidade, que deverá responder às especificidades dos sete territórios prioritários, respeitando os diversos contextos culturais e ambientais de cada povo”, acrescenta a arquiteta Luiza Dias Coelho, integrante do LAB Mulheres e copresidente do Instituto de Arquitetos do Brasil – Departamento Distrito Federal (IAB-DF), que organiza o concurso em parceria com a UnB.
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