A democracia se constrói a partir do encontro de pessoas distintas e convívio amistoso com diferenças para a construção de um bem comum. Na Universidade de Brasília, este objetivo se concretiza por meio da difusão de conhecimento, da construção de pesquisas, da criação de inovações e da interação com a comunidade via extensão. Metodologias ativas e colaborativas e programas voltados à diversidade têm apontado caminhos para a democratização de saberes e incentivo à pluralidade no ambiente acadêmico.
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“A democracia é justamente isso: saber que o outro pode ser um caminho para descobrir fissuras em suas próprias verdades e ter uma postura empática ao ouvir o outro, como defende Carl Rogers”, define Ricardo Fragelli, docente da Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharias (FCTE), no campus do Gama, ao mencionar o psicólogo francês, atuante em abordagem humanista. Fragelli desenvolve pesquisas sobre novos métodos, técnicas e tecnologias para a educação, pelas quais recebeu mais de uma dezena de prêmios nacionais.
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LIBERDADE DE CÁTEDRA E AUTONOMIA PEDAGÓGICA – A Constituição Federal, no artigo 206, assegura a docentes e estudantes a liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber, de modo a garantir o pluralismo de ideias e concepções de ensino, bem como a autonomia didático-científica. Esse princípio é reforçado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996), em seu artigo terceiro.
Na UnB, a autonomia para escolher métodos didáticos e o respeito à pluralidade de ideias e à não discriminação são princípios expressos em seu Estatuto e Regimento Geral e no Projeto Político-Pedagógico Institucional (PPPI).
Um exemplo da aplicação da autonomia pedagógica são as experiências do professor Fragelli com metodologias baseadas em aprendizagem ativa e colaborativa, que, em suas palavras, “estão particularmente voltadas para a criação de ambientes de colaboração e são espaços ideais para o aprendizado por meio da diversidade”.
“Nossa principal metodologia é conhecida como Método Trezentos, no qual formamos grupos potencialmente colaborativos e, com metas bem estabelecidas, os estudantes trabalham em um espaço de liberdade confortável e com autonomia, descobrindo uns aos outros e, principalmente, desenvolvendo uma aprendizagem significativa, com mais ancoragem e significado social”, descreve.
Como qualquer outra metodologia pedagógica, a prática de construção do saber por meio colaborativo pode encontrar alguns percalços, a exemplo do choque de ideias divergentes ao longo do debate, às vezes, levando a um impasse.
Nesse cenário, Fragelli reforça que é importante manter o foco no objetivo pedagógico: “O grande problema sobre o diálogo interminável é o caos e o risco de não se finalizar o plano proposto inicialmente e que poderia comprometer todo um fluxo formativo dentro de um determinado curso de graduação. Nesse sentido, o professor precisa oferecer uma liberdade confortável sem que, com isso, possa prejudicar os objetivos de aprendizagem da disciplina”.
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VOZES DA DIVERSIDADE – O conhecimento, a inovação e as soluções para os problemas do país são construídos em um processo contínuo e estão em constante mudança e aprimoramento. Quanto mais plural forem as vozes a construir os entendimentos dentro da Universidade, mais próximos estamos de compreender as múltiplas realidades do país.
Para ampliar a diversidade na Universidade, seja de raça, renda, origem, gênero, identidade sexual, religião ou credo, nas últimas duas décadas a instituição adotou medidas decisivas para a ampliação do acesso, da permanência e da inclusão de discentes. É o caso da criação de políticas de cotas raciais, para estudantes de baixa renda e pessoas trans, além dos vestibulares para Indígenas, da Licenciatura em Educação no Campo e UnB 60mais, voltado a pessoas idosas. Também são aplicadas práticas de extensão e protegidas a liberdade intelectual e às diferenças.
PERSPECTIVAS DISTINTAS – Na avaliação da docente Marisete Safons, da Faculdade de Educação Física (FEF), a inserção de pessoas idosas no rol de discentes da graduação da UnB, com a política de acesso 60mais, por exemplo, fortalece a democracia universitária ao promover a diversidade geracional e o combate ao idadismo.
Safons tem experiência em ensino, pesquisa e extensão na área do envelhecimento humano, sendo reconhecida internacionalmente na área. Desde 1997, está à frente do projeto de extensão Programa de Exercícios Físicos para Idosos, desenvolvido pelo Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Atividade Física para Idosos (Gepafi), e lidera o Programa de Extensão Envelhecimento Saudável e Participativo com Cidadania: UnB como Universidade Promotora de Saúde. Ela também participa do Grupo de Trabalho Envelhecimento Saudável e Participativo (GTESP).
A docente destaca que a Política para o Envelhecer Saudável, Participativo e Cidadão (PESPC), oficializada em 2022, transforma a Universidade em um laboratório vivo de democracia e produção de conhecimento intergeracional.
“A política destaca que a Universidade deve ser um espaço para ‘todas as idades’, e a presença ativa de pessoas idosas nas salas de aula da Universidade desconstrói preconceitos e enfrenta a visão estereotipada da velhice como fase de inatividade, reafirmando a pessoa idosa como um sujeito de direitos e de cidadania.”
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Safons acrescenta que a PESPC também garante que as políticas institucionais considerem as necessidades de uma parcela crescente da população, democratizando o acesso ao saber. “A participação de estudantes idosos em instâncias de decisão oxigena o debate público com diferentes olhares sobre a educação brasileira”, disse.
A docente entende que a contribuição das pessoas 60mais para o debate acadêmico é de suma importância para conectar a Universidade com a realidade social: “O saber acadêmico muitas vezes trabalha com modelos ideais. A pessoa idosa traz o ‘filtro da realidade’, confrontando teorias sociológicas ou de saúde com sua trajetória biográfica”.
“Isso impede que a ciência produza conhecimentos distantes das necessidades humanas reais. A construção do saber acadêmico ganha uma camada ética e empática. O idoso não é apenas um dado estatístico; ele é coautor que humaniza os protocolos de atendimento e intervenção, garantindo que o cuidado seja centrado na pessoa.”
Sobre a construção de saber a partir de pontos de vista distintos, Ricardo Fragelli afirma que, “quando você é submetido a um ambiente com diferentes perspectivas, coloca suas próprias percepções à prova, aprende a ouvir, a defender suas proposições, a desconstruir e a reconstruir novas ideias e conceitos, e, com isso, tem uma formação mais robusta e abrangente”.
A troca entre jovens e pessoas idosas gera uma "pedagogia da reciprocidade", nas palavras de Marisete Safons. “Enquanto o jovem pode dominar novas tecnologias, as pessoas idosas além de ter acesso às novas tecnologias, aportam resiliência, visão histórica e ética profissional, o que enriquece a formação humana de todos os estudantes", pontua a docente.
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