Um mapeamento realizado em 2025 aponta a autodeclaração de 334 pessoas trans, travestis ou não binárias na Universidade de Brasília. A maior parte (59,3%) dos que se manifestaram se declarou não binária. Homens trans são 17,1% dos respondentes, e mulheres trans, 14,1%. Houve ainda o apontamento de travestis (3,6%) e de outras expressões de gênero (6%). Esses e outros dados compõem relatório analítico para subsidiar políticas de inclusão e foram coletados e organizados, de forma inédita, pela Secretaria de Direitos Humanos (SDH).
A maioria na amostra não utiliza nome social (58,1%) e é formada por estudantes de graduação e de pós-graduação (90,4%). Para 88,9% dos respondentes, a UnB é institucionalmente considerada acolhedora. Os demais avaliam a Universidade como pouco (8,1%) ou nada (3%) acolhedora. As autodeclarações foram obtidas por meio de formulário on-line, restrito à comunidade que faz uso de e-mails institucionais.
“O mapeamento reúne informações inéditas que fortalecem a capacidade de planejamento e tomada de decisão da gestão universitária, especialmente em temas como infraestrutura, assistência estudantil, formação de servidores, fluxos administrativos e políticas de inclusão”, aponta o relatório da SDH. “Trata-se de um diagnóstico institucional fundamental para orientar ações que tornem a Universidade mais justa, acolhedora e alinhada aos princípios de diversidade e equidade”, explica o documento.
A secretária de Direitos Humanos, Cláudia Renault, avalia que a obtenção desses dados também é necessária para promover ações de capacitação voltadas ao acolhimento e atender a demandas específicas como a disponibilização e o regramento do uso de banheiros neutros.
“Também podemos proporcionar alterações em nossos normativos. Entendemos, por exemplo, que precisamos adaptar o normativo da resolução que trata do nome social”, avalia. Esses esforços, na visão da gestora, têm como fundamento estabelecer uma convivência “harmônica, com qualidade e direitos humanos garantidos”.
“Um dado importante a destacar é que o mapeamento ajuda a desconstruir a ideia, ainda presente no imaginário social, de que pessoas trans estariam concentradas apenas em cursos considerados mais ‘abertos à diversidade’”, diz o líder da Coordenação LGBTQIA+ da SDH, Caio Inácio. Ele informa que há pessoas mapeadas em todas as grandes áreas de conhecimento e em áreas administrativas.
“Esse resultado reforça que pessoas trans fazem parte da Universidade de forma ampla e diversa. Ao mesmo tempo, evidencia que a construção de um ambiente mais inclusivo não é responsabilidade de um único setor, mas um desafio institucional que envolve toda a Universidade”, afirma.
INFRAESTRUTURA E VISIBILIDADE – A preferência pelo uso de banheiros neutros, unissex ou agêneros foi apontada por 72,2% da população mapeada. Análise presente no relatório da SDH aponta essa informação como reveladora de uma necessidade “estrutural e urgente”. A secretaria relata a ocorrência “de abordagens hostis, constrangimentos e sensação de não pertencimento nos banheiros masculinos e femininos”, com impacto na permanência da população LGBTQIA+ nos campi.
“Esse resultado ajuda a dimensionar a relevância do tema dentro da Universidade. A partir desses dados, será criado um grupo de trabalho para discutir estratégias de sensibilização e orientação institucional”, explica Caio Inácio.
O coordenador diz que os desafios para dar visibilidade a essas minorias são múltiplos e que passam ainda pela “necessidade de avançar na construção de um ambiente universitário que respeite a identidade de gênero na prática cotidiana, e não apenas nas normas administrativas”.
O estudante Lucca Aguilar defende ampliar o diálogo para a instalação de banheiros. “O fato da gente ter pouquíssimos banheiros de gênero na Universidade representa algo que ainda precisa ser trabalhado com toda a comunidade acadêmica”, diz o futuro engenheiro de computação, que se identifica como homem trans.
Apesar desse desafio estrutural, Lucca elogia a iniciativa do mapeamento pela SDH e aprova o acolhimento institucional. “A Universidade tem diversos meios de suporte. Quando, por exemplo, fui fazer a inclusão do meu nome social no SIGAA, foi bem tranquilo, fui bem atendido”, afirma.
“As pessoas são respeitosas de maneira geral”, diz ele em referência direta a estudantes, técnicos e terceirizados. “Professores, às vezes, ainda apresentam alguns desafios. Mas, de uma forma geral, avalio o acolhimento da UnB como muito bom.”
No próximo dia 29 é comemorado o Dia Nacional da Visibilidade Trans. A SDH prepara programação para celebrar a data e confirma o já tradicional hasteamento da bandeira trans nos mastros fixados em frente à Reitoria. A diversidade de gênero tende a ser cada vez mais presente nos campi. Em 2024, o Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe) aprovou a criação de cotas para a reserva de 2% das vagas em cursos de graduação para pessoas trans.

