Carregados de expectativas, os anos 2000 – início de um novo milênio – trouxeram transformações decisivas para a Universidade de Brasília. Para além de responder aos reflexos das diversas viradas de chave na sociedade na tecnologia, cultura, economia e ciência, a instituição elevou a preocupação com sustentabilidade, meio ambiente, inclusão e diversidade.
Houve ainda a ampliação da internacionalização, da interdisciplinaridade e do ensino a distância, o fortalecimento da inovação e a implementação de estratégias para democratização do acesso à instituição.
Nesse cenário, a Universidade necessária, que nasceu futurista e inovadora, consolidou-se como espaço plural, diverso e ativo na defesa da democracia, diante dos novos desafios sociais, políticos e institucionais. É isso que destaca a terceira e última reportagem celebrativa dos 64 anos da UnB, que foca no período de 2004 a 2026.
Confira as demais matérias da série:
>> UnB e democracia: uma relação indissociável
>> Redemocratização do país impulsiona a construção de uma UnB mais plural e humana
PROGRESSO – Entre as 69 universidades federais brasileiras, a UnB é a única que não tem “federal” no nome. Mas essa não é sua única excepcionalidade: ela sempre carregou um quê modernista, ousado, pioneiro e democrático, construção que faz no dia a dia da instituição.
Nesse ponto, um dos compromissos da UnB foi o de adotar medidas de democratização do acesso e para a permanência dos estudantes em vulnerabilidade socioeconômica, apostando em novas formas de ingresso para trazer diversidade e inclusão. Em 2003, foi a primeira federal a criar política de cotas raciais para a seleção dos estudantes. A Lei de Cotas seria aprovada nacionalmente apenas em 2012, para todas as universidades e escolas técnicas federais.
Em 2006, a UnB instituiu o vestibular exclusivo para estudantes indígenas. Já em 2024, foi aprovado o processo seletivo para ingresso de pessoas idosas (o vestibular UnB 60mais) e cotas para pessoas trans.
Na década anterior, em 1996, havia sido uma das pioneiras na adoção da avaliação seriada em todas as etapas do ensino médio, uma alternativa ao vestibular tradicional que serviu de inspiração para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), criado em 1998.
Outra decisão acertada foi a descentralização da Universidade, que passou a ser multicampi em 2006, quando foi criada a Faculdade UnB Planaltina (FUP), primeira fora do Plano Piloto. Dois anos depois, foram inaugurados os campi de Ceilândia – hoje, Faculdade de Ciências e Tecnologias em Saúde (FCTS) – e do Gama – Faculdade de Ciências e Tecnologias em Engenharia (FCTE).
Tais avanços transformaram o perfil discente, aumentando a presença de estudantes negros, indígenas, quilombolas, PCDs, LGBTQIAPN+, de baixa renda e das regiões periféricas do Distrito Federal e trazendo mais representatividade, o que tem impactado diretamente a produção de conhecimento e a cultura universitária. Também contribuíram para a permanência desses públicos os programas de assistência estudantil, como os auxílios socioeconômico, moradia, transporte, alimentação e creche.
Para a diretora da Faculdade de Comunicação, Dione Moura, relatora da proposta de ações afirmativas raciais aprovada no Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão (Cepe), as políticas de cotas transformaram não somente a aparência da Universidade, mas contribuíram com o papel social de formar profissionais, antes excluídos do ensino superior, que agora produzem conhecimento e impactam a sociedade.
“A fotografia da Universidade, hoje, se parece mais com a fotografia do Brasil. Não é só quem acessa a UnB que se beneficia, mas toda a sociedade”, comenta a docente. Dione acredita que “as cotas são uma prática democrática e, antes disso, um direito constitucional”.
Essa ideia também é compartilhada pela professora Rachel Cunha, doutora em Psicologia e decana de Assuntos Comunitários de 2008 a 2011. “A redemocratização do acesso trouxe direitos e cidadania, sem exclusão de parte da sociedade. Isso permitiu à UnB ter soberania e formar profissionais críticos, conforme a concepção de Darcy [Ribeiro]”, comenta. Ela reforça ainda que as políticas de manutenção dos estudantes também são fundamentais, pois evitam exclusão e preconceitos.
Thérèse Hofmann, decana de Assuntos Comunitários de 1997 a 2005 e de Extensão de 2012 a 2016, também pontua o papel central da assistência estudantil, destacando o protagonismo da UnB na construção dessas agendas em nível nacional. “A atuação histórica da UnB contribuiu para consolidar a compreensão de que garantir a permanência dos estudantes é tão essencial quanto ampliar o acesso. E que a assistência estudantil não é gasto, e sim investimento”, salienta a professora.
DEMOCRACIA – As conquistas alcançadas pela Universidade de Brasília até os dias atuais apontam não apenas para a consolidação da diversidade como prática democrática, mas também para o fortalecimento dos mecanismos de transparência, gestão participativa e governança. Assim, estudantes, técnicos e docentes podem participar ativamente das decisões institucionais.
Como lembra a atual decana de Assuntos Comunitários, Camila Areda, praticar democracia todos os dias engloba o engajamento coletivo e em ações de conselhos, colegiados, editais conjuntos e processos deliberativos que orientam os rumos da Universidade.
“Os processos democráticos da UnB evoluem constantemente em relação à participação da comunidade. Tivemos uma participação intensa na última eleição para reitoria e uma representação discente significativa”, comenta.
O recente fim da lista tríplice para escolha de reitores favoreceu ainda mais a prevalência deste modelo participativo de universidade. Com a decisão do Senado Federal, passa a ser validado para nomeação pela Presidência da República apenas o candidato mais votado na consulta à comunidade acadêmica, garantindo que o voto da maioria dos segmentos universitários seja soberano.
“Nas ações decisivas e demandas, vemos a comunidade se mobilizando. Um grande exemplo foram as negociações para redução do valor do Restaurante Universitário, conduzidas em parceria entre vários setores, chegando a uma proposta viável”, relembra a decana.
Esse percurso reflete o amadurecimento da UnB e a busca contínua por maior autonomia, escuta coletiva e legitimidade interna. Isso, mesmo diante do atual contexto de enfrentamento à desinformação, da instabilidade política no país e de processos de desvalorização da ciência.
Como proferiu a ministra do Supremo Tribunal Federal Cármen Lúcia durante a aula magna que marcou os 64 anos da UnB, a defesa do Estado Democrático de Direito deve ser intencional e permanente. “A vida, como a democracia, se faz todo dia. Não é fácil. A vida é frágil, a democracia é frágil, mas elas são ótimas e necessárias.”
