RECONHECIMENTO

Docente e ativista em questões de raça e gênero, Jaqueline Gomes de Jesus foi a primeira gestora do sistema de cotas para negros da instituição

Foto: arquivo pessoal
Primeira mulher trans a se formar como doutora na Universidade de Brasília, Jaqueline Gomes de Jesus é hoje professora do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ). Foto: Arquivo Pessoal

 

No próximo dia 27 de março, a doutora, mestra e psicóloga pela UnB Jaqueline Gomes de Jesus será reconhecida com o Diploma Bertha Lutz, prêmio concedido anualmente pelo Senado Federal a pessoas com contribuição relevante para a defesa dos direitos das mulheres e das questões de gênero no Brasil. Jaqueline foi a primeira gestora do sistema de cotas raciais da Universidade, no período de 2004 a 2008, e idealizadora do Centro de Convivência Negra (CCN). À época atuava como psicóloga da instituição, após aprovação em concurso público.

 

Jaqueline é uma das 19 mulheres contempladas na edição de 2025, ao lado de figuras como as atrizes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro e da escritora Conceição Evaristo. A premiação do Senado Federal resgata a memória da bióloga e advogada paulista Bertha Maria Julia Lutz, figura significativa do feminismo e da educação no Brasil do século 20.

 

“Como é tocante para mim ser agraciada com esse diploma, especialmente em Brasília e no Senado Federal. Tem a ver com minha mãe, Maria Marli da Cunha Gomes, a primeira pessoa da família a se formar no ensino superior. E, principalmente, com meus avós, candangos que chegaram nesse território para construir a Capital do país, assim como outros operários que, construindo o Senado Federal, anotaram seus desejos de progresso, de democracia e de oportunidade para seus filhos e para todo o povo brasileiro”, compartilha a egressa da UnB.

 

Enquanto representante do movimento negro e da comunidade trans, Jaqueline enfatiza ser “uma das pessoas das quais não se esperava que tivesse progresso”, mas que “seguimos vivas, resistindo, transformando e lutando por um país e mundo melhor para todas as pessoas”, reforça a hoje docente no Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ) e na pós-graduação da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). 

 

“O Diploma Bertha Lutz sendo entregue para uma mulher trans, negra, crescida na periferia de Brasília, com uma trajetória pessoal e acadêmica de luta, é um reconhecimento do que represento para nossa comunidade, inclusive dos desafios que temos, porque somos poucas que conseguem chegar aonde estou. Ver-me como a exceção significa mais do que estimular que é possível estar aqui: é criticar a situação atual das mulheres trans brasileiras, com falta de acesso a trabalho, vítimas de violência física e mental. É fundamental para que nossa voz e corpo sejam ouvidos e representados.” 

 

Jaqueline Gomes de Jesus

Foto: arquivo pessoal
Hoje moradora do Rio de Janeiro, Jaqueline nasceu e cresceu em Brasília. Seus avós se mudaram para a cidade na época da construção da Capital e construíram um barraco no local onde viria a ser erguido o campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte. Foto: Arquivo Pessoal

 

TRAJETÓRIA – Ainda na graduação, Jaqueline se tornou parte do, à época, movimento LGBT de Brasília e do Coletivo Nacional de Juventude Negra – Enegrecer, e desde então atua na defesa de direitos de questões raciais e de gênero. Sua pesquisa de mestrado na UnB foi a primeira do país, na área de Psicologia, a investigar o trabalho escravo no Brasil contemporâneo. 

 

Jaqueline era psicóloga da UnB quando foi aprovado o sistema de cotas. “Havia várias discussões sobre a gestão do sistema, mas não havia um plano em concreto. Então, reuni os conhecimentos do movimento social e da minha formação e propus um plano de gestão, que incluiu a criação de uma assessoria diretamente ligada à Reitoria, a Assessoria de Diversidade e Apoio aos Cotistas.”

 

Ela menciona que havia demanda por uma sala de apoio aos estudantes negros. “Uma sala era insuficiente. Era necessário fazer uma marcação não só de espaço de apoio na lógica assistencial, mas também promover políticas e mudanças de pensamento, para enfrentar as dificuldades da implementação da inclusão, que é nossa grande meta quando falamos de ações afirmativas”, conta. Desse esforço resultou o Centro de Convivência Negra e em outras políticas institucionais. 

 

>> Leia também: Debate aborda desafios e perspectivas para efetivar cotas a pessoas trans na UnB

 

Jaqueline recorda que a gestão de cotas foi “extremamente desafiadora”, considerando sua posição como “pessoa negra, trans e jovem”, em um contexto de mudança de cultura. A experiência está relatada no artigo O desafio da convivência: assessoria de diversidade e apoio aos cotistas (2004 a 2008).   

 

A pesquisadora fala com carinho do vínculo com a UnB, que começa antes de seu nascimento, “quando os avós dona Teresinha e seu Jonas chegam para trabalhar na construção da Capital e passam a morar em um barraco montado em frente ao local aonde viria a ser o campus”.  “Depois minha mãe se forma na UnB, e eu passo a frequentar a UnB ainda em sua barriga, pois nasci no ano em que ela se graduou em Pedagogia, em 1978. Já meu pai teve o vínculo como operador de computador.”

 

Ela acrescenta que, além de contribuir para sua “formação como pessoa e como profissional”, a UnB continua sendo parte de sua trajetória, por meio de vínculos em atividades de pesquisa e por ser uma base importante para encontrar amigos e professores.  

 

COMPROMISSO INSTITUCIONAL – Recentemente, a Universidade de Brasília reforçou seu compromisso com a inclusão social ao implementar cotas para pessoas trans, com reserva de 2% das vagas em todas as modalidades de ingresso primário na graduação. Desde 2017, garante o uso do nome social às pessoas trans e travestis. Além disso, aprovou, em 2021, uma resolução que reserva 2% das vagas de estágio para esse público e uma política para a promoção dos direitos humanos e erradicação de atos discriminatórios.

 

Em 2020, instituiu o Programa de Atenção à Diversidade (PADiv) destinado a estudantes de graduação pertencentes a segmentos socialmente vulneráveis. Ademais, a Coordenação LGBTQIA+ da Secretaria de Direitos Humanos (SDH/UnB) busca promover os direitos da comunidade.

 

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